Main

militância Archives

maio 24, 2009

A favor do casamento gay

O texto abaixo foi escrito por mim para o site Gospel Gay e rebate os principais "argumentos", sobretudo de natureza religiosa, contra a instituição do casamento gay. Reproduzo aqui porque é um dos melhores que já fiz e sintetiza o fato de que não existe argumento plausível para se negar o direito a esta parcela da população, na qual me incluo...


Recentemente, publicamos uma notícia neste blog [o Gospel Gay] informando que, na Itália, 40% das pessoas apoiam o casamento gay.

Como acontece com costumeira frequência em notícias do tipo, houve reações contrárias, especialmente ao uso da palavra "casamento" para designar a união entre pessoas de mesmo sexo. Um dos comentários maiores e, por isso, mais interessantes, não foi infelizmente assinado, sendo que por isso vou referir o autor como "Anônimo".

O comentário é interessante porque reflete uma forma muito corrente de pensar a questão do casamento, especialmente entre evangélicos de denominações tradicionalistas, mas que é pontuada de equívocos - e, para ficar mais inteligível, vou destacar as partes mais importantes, escrevendo o contra-argumento em seguida.

Sinceramente, espero que isso nunca se concretize.

A princípio, uma informação. Mesmo sendo do desejo do Anônimo que o casamento gay "nunca se concretize", isso já não é possível. Já há países que possuem casamento gay, efetivos, com todos os direitos e deveres atinentes a essa condição, injustificando, portanto, uma outra denominação para a união entre pessoas de mesmo sexo. É o caso, por exemplo, da Espanha, do Canadá, da Holanda, da Bélgica e da África do Sul. Na própria Espanha, o casamento é definido, em texto legal, como a união entre duas pessoas, desprezando a que sexo elas pertencem


Os gays podem se ajuntar na forma que quiserem, mas, casamento de verdade, somente entre homem e mulher, que podem procriar e dar continuidade à espécie humana de forma natural (e não por inseminação artificial) e prevista por Deus. Já pensaram se na origem da humanidade só tivesse gays? Ou se todos os primeiros descendentes de Adão e Eva optassem por serem gays (mesmo que fosse genético) [...]? Estaríamos aqui hoje? Acho que não... Não terí­amos filhos e, consequentemente, a humanidade que hoje povoa a Terra simplesmente não existiria.

Parece haver lógica nesse argumento, mas, na verdade, existe aqui uma mistura de conceitos e uma falta de densidade racional. Em primeiro lugar, é simplesmente equivocado relacionar o casamento, qualquer que seja ele, à preservação natural da espécie humana, como se uma coisa levasse à outra, ou fossem interdependentes.

Deixemos uma coisa bem clara: animais, plantas, bactérias, vírus não se casam - mas se reproduzem e se perpetuam - e, por sinal, podem se reproduzir de formas bem diversas da que aprendemos como "natural", a reprodução sexuada macho-fêmea. Existem seres hermafroditas, seres que se reproduzem por partenogênese, seres que se reproduzem por mitose e uma série de outras estratégias.

O casamento, portanto, é uma instituição exclusivamente humana e, dessa forma, é antes de tudo, histórico-social. Ou será que já vimos uma leoa de véu e grinalda na frente de um sacerdote fazendo votos? Ou ainda uma bactéria assinando um contrato civil de união (que é o casamento civil) ou um bonobo negociando um acordo pré-nupcial?

Em termos naturais e de preservação da espécie, pouco importa que exista essa instituição. Se o casamento, hétero, fosse abolido em todo o mundo, a espécie humana ainda se reproduziria, bastando para isso que homens solteiros transassem com mulheres solteiras. É o sexo heterossexual, e não o casamento heterossexual, que é imprescindível ao encontro dos gametas e à geração de descendentes (se, como quer o autor, excluirmos a inseminação, de toda forma também buscada por héteros, vale ressaltar).

Sendo, portanto, o casamento uma instituição histórico-social, e, portanto, criada por humanos e totalmente artificial, o conteúdo desse conceito é dado exclusivamente pelos humanos. A própria prova é a existência do casamento civil, que é a modalidade que gera efeitos no Brasil, sendo que é absolutamente impossível fazer qualquer relação direta entre assinar o nome num papel em frente a um juiz de paz lavrado em cartório e transar para engravidar. A dissociação é tão grande que casais héteros podem ser casados - e optar por não ter filhos.

Assim, os seres humanos podem chamar de casamento o que quiserem, inclusive a união entre pessoas de mesmo sexo. Um exemplo prático: se o que existe na lei é um contrato civil que recebeu o nome de casamento, e a lei habilita casais de mesmo sexo a estabelecer esse mesmíssimo contrato, não existe nenhum argumento plausível para chamá-lo de outra forma.

Apelemos, no entanto, para a religião. Um erro comum dos evangélicos é considerar o casamento (religioso, ou seja, a união frente a uma divindade) como um mandamento divino em si mesmo. Isso pode ser verdade - mas é uma "verdade local". É verdadeiro apenas para os evangélicos, dentro do sistema de fé deles, e dentro de uma cerimônia particular entre eles.

O casamento religioso em si, entendido como união frente a uma divindade, existe anteriormente ao advento do cristianismo e dos mandamentos que os cristãos crêem ter partido de seu Deus. Ele também não foi e nem é exclusividade cristã.

Os "idólatras", adoradores de outros Deuses, também se casam, de forma religiosa, em cerimônias que são dedicadas a esses outros Deuses, e não ao Deus que os cristãos reputam como verdadeiro. Mesmo membros do satanismo também se casam de forma religiosa. Membros de outras tradições religiosas abraâmicas que os cristãos consideram heréticas ou equivocadas, como judeus e muçulmanos, também se casam. E, no entanto, nenhum desses outros casamentos podem ser entendidos como uma obediência ao mandamento divino, do Deus "verdadeiro", que mesmo inexiste nesses outros cultos.

O argumento do Anônimo, portanto, para se sustentar, teria de incluir uma incitação polêmica. Se tais outros casamentos não são uma obediência a Deus, mas até mesmo uma "oferenda aos ídolos", eles também deveriam ser evitados. Os cristãos deveriam, portanto, não apenas tentar impedir o casamento de pessoas de mesmo sexo, mas também os casamentos heterossexuais de wiccanos, umbandistas, candomblecistas, judeus, muçulmanos, budistas, etc., uma vez que são uniões celebradas em obediência a "divindades falsas", e não ao mandamento do "Deus verdadeiro".

Tal, porém, não ocorre e talvez porque, nessa hora, porque interessa, os cristãos evangélicos se recordam de que vivemos num Estado laico que garante liberdade de credo. Isso significa, entre outras coisas, que as pessoas podem realizar cerimônias, cultos e acreditar no que quiserem, desde que não firam a ordem pública ou interfiram no direito ou liberdade de outrem.

Então, como diria a própria Bíblia, não dá para ter dois pesos e duas medidas. Ou se aceita que todos os casamentos não-cristãos são inerentemente inválidos e falsos. Ou se aceita o princípio do respeito à liberdade religiosa que, por definição, inclui o respeito ao casamento religioso gay.

Afinal, se os membros de um determinado credo crêem que a divindade daquela religião não apenas apoia a homossexualidade, como permite que homossexuais se casem, que argumento teriam os evangélicos para interferir nesse tipo de casamento, se sua divindade é outra e se, "falsidade por falsidade", tais evangélicos admitem que a cerimônia transcorra, e seja válida, entre heterossexuais, mesmo "sabendo" que a divindade é, dentro da doutrina cristã, falsa e que não é o mandamento do Deus cristão que está sendo seguido? Acaso, os cristãos evangélicos querem ter o monopólio sobre Deuses em que não acreditam e nos quais não crêem?

O ponto nevrálgico, no entanto, é que o mesmo argumento é válido para denominações inter-cristãs. Se uma denominação cristã, adotando uma determinada linha de interpretação, entende que Deus nada tem contra a homossexualidade e que o casamento entre gays é válido, o mesmo direito há de ser garantido de realizar esta denominação a cerimônia. Portanto, o casamento hétero como mandamento divino para evitar a união gay com esse nome não se sustenta de forma racional, lógica, religiosa e muito menos de respeito à fé das pessoas, se tratado com abrangência com que se deve.

Finalmente, o terceiro equívoco, que retorna o argumento da reprodução. É um erro constante acreditar que a reprodução humana dependa da heterossexualidade. Lembremos, antes de tudo, o que define orientação sexual: é a atração físico-afetiva, o desejo erótico orientado (daí, o "orientação") a alguém de determinado sexo. A heterossexualidade, portanto, não é o ato sexual hétero. É o desejo que nasce entre os héteros e que pode, ou não, levar a esse ato consumado. O mesmo se aplica à homossexualidade e à bissexualidade.

"Pode ou não" tb tem importância porque, ao longo da vida, as pessoas muitas vezes praticam relações sexuais não-condizentes com suas orientações sexuais primárias. Não são poucos os gays que já se relacionaram sexualmente com mulheres, lésbicas que já foram casadas com homens heterossexuais, homens héteros envolvidos em experiências de troca-troca ou relações com travestis, mulheres héteros que já se agarram com uma amiga em um "momento de fraqueza".

Ora, creio que nenhum ser humano racional pensará que o desejo, sozinho, produza descendentes. Quando muito, ele apenas auxilia a chegar até lá, mas não basta desejar o homem uma mulher (heterossexualidade) para que tenha filhos com ela. É o ato sexual objetivo que produz. Logo, a heterossexualidade, sozinha, nada produz. É a relação sexual objetiva, desprotegida e em período fértil entre um homem e uma mulher que produz descendentes.

É importante destacar isso e o "pode ou não" por dois motivos: primeiro porque (1) apenas haver héteros não é garantia de reprodução e preservação da espécie. Basta apenas que os héteros decidam não ter, ou não possam (caso dos estéreis e idosos) ter filhos, ou ainda não estejam em período de fertilidade; (2) gays são homens e lésbicas são mulheres. Desde que não haja problemas de fertilidade, isso os credencia amplamente a propagar a espécie, bastando para isso que se relacionem entre si, mesmo eventualmente, sem que, para isso, abram mão de sua orientação sexual. Com efeito, não é raro encontrar gays e lésbicas que já foram casados heterossexualmente e têm descendentes biológicos - e, no entanto, são gays e são lésbicas.

Portanto, o que aconteceria se os descendentes de Adão e Eva fossem todos gays - para além do fato de que Adão e Eva é um mito, e não um fato histórico -, como sugere o Anônimo? A humanidade desapareceria? A resposta é não.

Certamente, essa condição levaria a uma estrutura social que incluiria o sexo hétero como forma de reprodução, mormente em cerimônias específicas. Para não dizer que isso é conjectura, uma boa lida nas práticas sociais do povo etoro seria interessante ao autor. Povo de prática homossexualista, os etoros reservam o sexo hétero a apenas algumas ocasiões específicas que não passam de alguns dias por ano. Isso não os impediu de se reproduzirem e se manterem, existindo até hoje, ao passo que outros povos de práticas heterossexualistas disseminadas, como os antigos romanos, desapareceram. Outros povos que podem ser chamados "ao banco de testemunhas" seriam os gregos e os antigos japoneses, que resolveram a questão de uma forma ritualística.

Quando muito, talvez uma humanidade gay crescesse apenas mais devagar. O que parece desvantagem, no entanto, seria uma ótima notícia num mundo superpopulado com mais de 6 bilhões de habitantes, alterações climáticas, aquecimento global e extinção de espécies causadas por esses mesmos 6 bilhões. Além disso, como parece haver uma menor tendência homossexual, no caso masculina, ao belicismo e ao conflito, é possível que esse crescimento mais devagar fosse compensando por um menor número de mortes de homens jovens em idade reprodutiva e passível de gerar descendência, mesmo que essa tendência "à briga" tenha, como acredito, origens plenamente sociais.

Então, sim, a humanidade existiria e sim, provavelmente, estaríamos aqui.

Os demais argumentos tecidos pelo autor são repetição dos acima refutados e, portanto, não carecem de melhor exame. Em relação especificamente às supostas passagens bíblicas "condenadoras da homossexualidade", fica a sugestão de ler o estudo bíblico já disponibilizado no próprio Gospel Gay, de autoria de Renato Hoffmann.

junho 7, 2009

Mordaça gay?

O texto abaixo é um artigo interessantíssimo do Reverendo Márcio Retamero, da Comunidade Betel, esclarecendo a respeito do PLC 122, que criminaliza a homofobia. Reproduzo abaixo e vale muito a pena ler!


A Liberdade de Expressão, os Evangélicos Fundamentalistas e o PCL 122

"Hoje, mais do que nunca, as pessoas têm certeza de possuir Liberdade absoluta; todavia, elas trouxeram sua liberdade até nós e a depositaram humildemente a nossos pés".
O Grande Inquisitor, de Dostoievski.

No dia 30 de maio de 2009, o jornal "O Estado de São Paulo", conhecido como "Estadão", trouxe a matéria intitulada "Sem alterações, Senado não aprova lei anti-homofobia". A avaliação contida na chamada é da Senadora Fátima Cleide (PT-RO), relatora do PLC 122 no Congresso Nacional. A razão da provável não aprovação do texto original do PCL 122 no Senado Federal é a posição contrária da chamada "bancada evangélica" ao PLC 122, que na visão deles, instauraria uma "ditadura gay" no país. Foram eles que apelidaram o PLC 122 de "Mordaça Gay", usando tal equivocado apelido para mobilizar a população brasileira contra o PLC 122.

Segundo os parlamentares evangélicos fundamentalistas, o PLC 122, criminaliza a opinião deles de que a homossexualidade é um pecado contra Deus, segundo as Escrituras Cristãs. A senadora Fátima Cleide, diz que já existe um acordo no sentido de retirar do texto o tema. Os parlamentares evangélicos estão contra o Art. 20 proposto pelo PCL 122 que altera a Lei 7.716/1999. Diz o Artigo 20: "Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero: Parágrafo 5º: o disposto neste artigo envolve a prática de qualquer tipo de ação violenta, constrangedora, intimidatória ou vexatória, de *ordem moral, ética, filosófica ou psicológica*". Mas este não é o único artigo que encontra resistência entre os evangélicos fundamentalistas; outros, que determinam a não-discriminação por troca de afeto entre iguais em local público, também é motivo de discordância.

É preciso que fique claro que o substitutivo que eles, os parlamentares evangélicos fundamentalistas proporão (liderados por Marcelo Crivella e Magno Malta), não alterará somente o artigo 20 acima transcrito, mas outros de igual modo. Sobrará muito pouco do texto original, caso o substitutivo deles vença a disputa.

Os evangélicos fundamentalistas e seus representantes no Congresso Nacional, dizem que o PLC 122 fere o que eles chamam de "liberdade de expressão", criando uma categoria "intocável" de cidadãos, segundo discurso do Pastor Silas Malafaia, influente pregador evangélico brasileiro, um dos maiores opositores ao avanço dos direitos civis LGBT, dentre outros, como Rev. Guilhermino Cunha (presbiteriano) e Nilson do Amaral Fanini (batista).

Cabe aqui a reflexão: o que é, numa democracia, liberdade de expressão? É o direito de dizer, de manifestar, nos diversos módulos de linguagem, o que quiser, sem respeitar o direito do outro? Numa democracia, vale dizer o que pensa, seja lá o que for que pensa, a respeito do cidadão alheio? Isso não se parece mais como pressuposto de uma ditadura, onde um só ou uma minoria tem o poder de regular a vida alheia?

Crer, como muitos, que uma democracia é uma sociedade livre, onde vale tudo, é um equívoco! Jamais existirá algo parecido: uma liberdade geral e total, onde é possível dizer e se comportar socialmente como convém a cada um. Democracia verdadeira se instala quando liberdades e não-liberdades fazem parte do chamado pacto social. "A Democracia exige que as "Liberdades civis" sejam protegidas por direitos legalmente definidos e por deveres a eles correspondentes, que acabam implicando **limitações da Liberdade**" (Felix E. Oppenheim – verbete "Liberdade", Dicionário de Política, BOBBIO e outros, UNB 2002, 12ª edição).

O discurso evangélico fundamentalista de que a aprovação do projeto original do PLC 122 fere a "liberdade de expressão" é um falso discurso, portanto! Liberdade de expressão, numa democracia, não é sair por ai dizendo o que tem na cabeça a respeito de tudo e todos; ao contrário, numa democracia de fato, a liberdade de expressão é seguida da responsabilidade social. Aliás, é limitada por ela! Liberdade de expressão não é passaporte seguro para destilarmos os preconceitos que temos e eles são muitos! Liberdade de expressão não permite que um cidadão humilhe outro, o constranja, o intimide, fira a consciência alheia, o exponha ao vexame ou incite, pelo discurso, preconceito, ódio, exclusão, discriminação ou qualquer coisa que se parece com isso.

E, se eles, os evangélicos fundamentalistas, dizem que não procedem assim em relação aos LGBTs estão mentindo e aí sim, pecando, segundo o que eles pregam, contra Deus. Pois o próprio Silas Malafaia, realiza este tipo de discurso, quando compara, em suas pregações, os LGBTs com os viciados em drogas, ladrões e profissionais do sexo. Não foi nem uma nem duas vezes que eu mesmo já ouvi na TV e em DVD, ele dizendo: "se o viciado em drogas deixa de ser viciado em drogas; se um ladrão deixa de roubar; se uma prostituta deixa de se prostituir; um homossexual pode deixar o homossexualismo (sic)". É este tipo de discurso que eles querem preservar. Isto é liberdade de expressão? Onde? Só aqui mesmo em nosso país, cuja legislação não avança no sentido de proteger a liberdade social e o direito civil da população LGBT!

Pregações como essa alimentam a homofobia; incitam ao preconceito e ao ódio, por mais piedosa que seja as declarações eivadas de cinismo desses pregadores que dizem: "amamos o pecador e abominamos o pecado", como se fosse possível separar ação de agente! Pregações como essa estão por trás de cada mão que assassina; de cada agressão verbal; de cada agressão física; de cada vexame; de cada suicídio; de cada pai e mãe que expulsam seus filhos e filhas de casa porque são gays.

Garantir o direito desses senhores continuarem a dizer coisas como diz Silas Malafaia e seus pares em relação aos homossexuais, fere o ideal democrático. Fere a minha liberdade de ser, uma vez que faz parte de mim ser homossexual. Fere a minha dignidade humana, que deve ser garantida pelas leis do meu país, já que o meu país declara-se um país democrático.

Eles chamam o PLC 122 de "mordaça gay" porque querem garantir o "direito" deles de amordaçar quem não segue suas opiniões. Quem tem usado mordaça e durante séculos neste país, somos nós, os LGBTs. Temos usado mordaça quando não podemos acionar criminalmente ou no âmbito do Direito Cível ou Trabalhista quando somos atacados, humilhados, vilipendiados, por discursos religiosos de pastores fundamentalistas como Silas Malafaia ou por opiniões como de Júlio Severo. Somos amordaçados quando o empregador inventa alguma coisa que vai implicar numa demissão sumária, quando na verdade ele está demitindo porque o cidadão é homossexual. Somos amordaçados quando através de textos, sites, programas de rádio e televisão cuja assistência conta com milhões de brasileiros e brasileiras, somos comparados com traficantes de drogas, viciados e ladrões. Somos amordaçados quando nos matam; quando tiramos nossas vidas num ato de desespero diante de tanta discriminação e preconceito. Somos amordaçados quando nos atacam fisicamente por sermos homossexuais ou quando aos berros nos xingam pelos lugares. Somos amordaçados, enfim, quando substitutivos ao PLC 122 é proposto com grande margem de sucesso de aprovação, por quem acha que a Constituição Brasileira deve seguir uma determinada leitura – jamais a única – das Escrituras Cristãs, que é exatamente o que os parlamentares fundamentalistas estão fazendo!

Se for aprovado o substitutivo proposto por Marcelo Crivella e Magno Malta, estaremos realizando o pesadelo fictício de Dostoievski, narrado na grande obra "Os Irmãos Karamazov" cujo trecho ilustra o início deste artigo: depositaremos aos pés dos grandes inquisidores evangélicos fundamentalistas, a nossa liberdade. Pesadelo maior que esse pra uma democracia é difícil de encontrar concorrente. A Democracia que se pretende verdadeira, não maquiada, pressupõe liberdade igual para todos os cidadãos; não mais liberdade para alguns. Atualmente, nós, o povo LGBT do Brasil, não fomos alcançados pelos raios do sol da liberdade que cantamos em nosso Hino Nacional. Estamos amordaçados há séculos!

Reverendo Márcio Retamero
Comunidade Betel do Rio de Janeiro
www.betelrj.com


junho 15, 2009

Solano Portela e o genocídio homossexual

No site Mídia Sem Máscara, uma das últimas pérolas, do "teólogo" Solano Portela, é questionar a ideia de que homossexuais sejam vítimas de enorme violência no Brasil. Usando de cortinas de fumaça e argumentos esdrúxulos, o teólogo tenta "comprovar" que o que existe, de fato, é uma "heterofobia" e uma "distorção" da realidade a partir do governo "petista", ferozmente atacado no citado site. Veja o artigo aqui.

Solano Portela tem razão?

Analisemos.

Bom, é claro que, como teólogo conservador que é, o Sr. Solano Portela é especialista em distorções. Afinal, que distorção maior pode haver em pregar uma religião que supostamente é baseada em paz e amor, mas se utilizar dos conhecimentos dessa mesma religião para justificar, ou minimizar a violência?

Portela é tão mestre no assunto que seu texto, postado em um site que se diz "sem máscaras", convenientemente oculta informações relevantes sobre as estatísticas que tanto tenta combater, mascarando a verdade.

A primeira delas é, logo de cara, o motivo de existirem tais estatísticas. Solano usa o argumento do Professor Luiz Mott sem considerar o fundamento dele para dizer que, no Brasil, ser homossexual é mais seguro e que heterossexuais têm 40x mais chances de sofrerem violência.

Efetivamente, como demonstra o "douto" teólogo, é possível chegar a essa conclusão matematicamente. Desde que se despreze o tipo de crime que o professor Luiz Mott utiliza para fazer sua base de cálculo, que é o crime homofóbico, e a fonte que o Mott utiliza em sua estatística.

Esclareçamos, portanto.

Em primeiro lugar, Mott contabiliza os crimes que são motivados ou agravados pelo preconceito de que homossexuais são vítimas.

Existe, portanto, um motivo para que o crime seja contabilizado na estatística: não é qualquer crime sofrido por gays ou lésbicas, ou, no que diz respeito ao que estamos discutindo, qualquer assassinato de que gays, lésbicas e afins são vítimas que entra nas estatísticas - mas aqueles assassinatos que são perpetrados pelos algozes tendo em vista a condição de homossexual da vítima.

Se um gay ou lésbica estiver, por exemplo, passeando pelo centro de São Paulo, e for vítima de um latrocínio comum, este crime não é contabilizado como crime homofóbico. Também não o é, se, por infortúnio, a pessoa morrer em um acidente de trânsito comum.

Coisa diversa é, no entanto, quando a pessoa é agredida e morta não porque o criminoso queria seu dinheiro: mas porque ela, sendo homem, estava de mãos dadas com o namorado, por exemplo.

Coisa diversa, conforme atesta a reportagem do Bom dia, Brasil, da Rede Globo, é ter uma bomba jogada de um edifício a fim de machucar participantes da Parada Gay. Muito provavelmente, pelo simples fato de serem gays e estarem naquela manifestação.

Outro crime que é contabilizado por Mott é aquele em que o fato de ser gay é um agravante para a violência. Lembremos do exemplo do latrocínio comum. O crime entrará na estatística se, ao perceber que a vítima é um LGBT, o criminoso, por isso, usar de violência descomedida.

A questão da motivação, portanto, é essencial para entender a estatística promulgada por Luiz Mott. Quando se diz que, a cada três dias, morre um homossexual no Brasil, não estamos dizendo que, a cada três dias, morre um homossexual porque se envolveu num acidente de trânsito, porque foi vítima de latrocínio comum, porque se envolveu numa briga de bar, discutiu no trânsito ou coisa semelhante.

Quando se diz que, a cada três dias, morre um homossexual no Brasil, dizemos que, a cada três dias, um homossexual morre no Brasil tão somente pelo fato de ser homossexual. E por nenhum outro motivo relevante.

Corrija-me, portanto, Solano Portela, ou qualquer outro. Mas, até onde sei, inexistem, em nosso País, casos de heterossexuais mortos pelas mãos de terceiros por causa de sua heterossexualidade.

Quantos héteros são agredidos, ou mortos, diariamente no País, porque beijaram suas esposas, por exemplo, e alguém na rua "não gostou porque homem com mulher é contra as Leis de Deus"?

Pois é disto, e de nada mais, que estamos falando.

Até eu já passei por uma situação de estresse no metrô de São Paulo, porque estava de mãos dadas com meu namorado e me arrisquei a dar um selinho nele. Um homem enfurecido levantou-se da cadeira, nervoso e esbravejando porque estávamos "desrespeitando sua esposa" - que, na verdade, ficou muito mais envergonhada com a atitude dele, a ponto de sair do trem escondendo seu rosto.

Pergunto ao Sr. Portela: quantas vezes ele passou por situação semelhante ao dar as mãos ou encostar os lábios em sua esposa? Ou, ainda, por carregar a Bíblia embaixo do braço?

Pois é disto, e de nada mais, que estamos falando.

Tanto é assim que a estatística de Mott utiliza-se da análise do modus operandi para se sustentar. Como foi a história, quem matou, por quê, a pessoa xingou, humilhou a vítima, em que termos, se mutilou de forma a punir a sexualidade do outro, etc.

Não tenham dúvidas de que, se no meu caso particular, a coisa houvesse progredido até resultar em agressão e morte, seria um crime homofóbico e provavelmente entraria nas estatísticas do professor Luiz Mott. Afinal, qual foi a motivação? Um beijo gay.

Portanto, se esvai a tentativa do "teólogo" de ocultar a verdade do assassinato de gays no País tendo como motivação a homofobia. Bem como a tentativa matemática, mas irregular, de "provar" que é mais seguro ser gay do que ser hétero no País.

Seria interessante ver o Sr. Portela procurar comprovar, na prática, seu argumento. Por exemplo, arriscando-se a sair com outro homem, como se gay fosse, e procurando ver realmente se estará "mais seguro" e "escapará mais" da morte, como quer "provar".

O segundo ponto que interessa destacar é que a estatística de Luiz Mott é baseada em artigos da imprensa. Erroneamente, o Sr. Portela parece considerar que ela representa a totalidade de crimes cometidos contra gays. Morre um homossexual a cada três dias no Brasil considerando-se somente os crimes que saem na mídia com motivação homofóbica.

Quantos outros ocorrem, mas não chamam a atenção dos jornalistas? Se, apenas com o que a mídia divulga - que, por definição, é sempre uma pequena parte -, esta já é a estatística, imagine se pudessem ser considerados TODOS os crimes que não chegam até ela e têm motivação homofóbica...

Sim, vivemos um genocídio homossexual no Brasil tomando como referência esse parâmetro. Qualquer que seja a conta matemática, é evidente que, na realidade, morrem MAIS de um homossexual a cada três dias por ser homossexual.

Aliás, diferentemente do que o autor distorce em seu texto no primeiro item, o movimento gay não rejeita a ideia de inclinação biológica ou genética da homossexualidade. A defesa do direito de ser quem é a que o teólogo se refere, é bem mais simples que isso: que independentemente da "causa" da homossexualidade, o fato de ser gay não deve ser motivador de discriminação - e deve-se respeitar as pessoas em sua individualidade, diferença e diversidade.

A título de exemplo, lembremos que, como teólogo cristão, o Sr. Portela OPTOU por essa religião. Mas duvido muito que concorde com a ideia de que deve ser punido, agredido, morto ou discriminado por isso - mesmo que seja muito mais simples mudar de religião do que de orientação sexual (afinal, sequer existem bases objetivas para sustentar "reorientações" sexuais).

Repito, ao Sr. Portela, a pergunta: quantos heterossexuais são mortos, em notícias da mídia ou fora dela, por conta de sua heterossexualidade?

Por fim, o Sr. Portela se apropria de definições deslocadas (ou distorcidas) dos estudos da sexualidade, ao falar que "ativos também são homossexuais". Sugere o autor que os ativos "não são contabilizados", quando inexiste, na mídia ou nas estatísticas de Luiz Mott, qualquer restrição nesse sentido.

Simplesmente ocorre de que, por questões de machismo que o autor certamente conhece (mas oculta), a passividade é um item agravante e ultrajante para a maneira como é construída a imagem do "macho brasileiro": razão pela qual é mais comum um "ativo" matar frente à possibilidade de "se igualar" permitindo-se a penetração; do que um passivo frente à possibilidade de também penetrar.

Mas o primeiro ponto merece ainda alguma análise. Será que os "ativos" são também homossexuais?

Algumas vezes, sim. Outras vezes, não.

Com efeito, é sabido que o que define a orientação sexual é o desejo erótico, a atração físico-sexual tomada em sua acepção ampla no interior da vida do indivíduo - Portela, se não sabe (mas ocultou), saberia se acompanhasse os recentes desenvolvimentos nos estudos da sexualidade e áreas afins. Especialmente, no Brasil, experimentações, mesmo que repetidas, em outros espectros da sexualidade não constituem prova de orientação sexual per se.

No Brasil, é comum que homens se relacionem com homens como ativos e se definam, se sintam e vivam como heterossexuais. E, de fato, parte deles realmente o é, posto que o desejo é orientado às mulheres, e as transas com homens não se relacionam à atração que rege suas vidas.

O inverso também é verdadeiro. "Ex-gays", de igrejas cristãs, da religião do Sr. Portela, não são "ex-" porque se relacionam sexualmente com mulheres. São GAYS que se relacionam sexualmente com mulheres, mesmo que sua orientação sexual indique o oposto: uma situação que, motivada por questões religiosas, fatalmente é geradora de ansiedade, crises e, quando não, traumas. Existe até nome para isso: orientação sexual egodistônica. Fica aqui, portanto, o alerta: ao contrário do que pregam pessoas como Rozangela Justino e Julio Severo, o "ex-gay" não está "curado" ou "reorientado" de nada - mas, muito provavelmente, inserindo em sua vida uma egodistonia que pode levá-lo, aí sim, à patologia.

Retomemos, portanto, o argumento do Sr. Portela, que tenta, no fundo, culpar os gays pela violência de que são vítimas e talvez negar a existência de criminosos héteros e homofóbicos: não, não são todos os ativos que são homossexuais. Segundo, não me consta que todos os crimes homofóbicos tenham referência à relação sexual dos envolvidos. Terceiro, quem disse que a homofobia não afeta também alguns homens e mulheres, que procuram reprimir a homossexualidade veementemente e se tornam agressivos quando esta lhes aparece?

Além disso, e isso é sabido, um criminoso pode perfeitamente seduzir a vítima com vistas ao mal. Mulheres assassinadas por serial killers, crianças vítimas de pedofilia, e vítimas de violência doméstica, golpes do tipo "Boa Noite, Cinderela" e outros podem ser estudados nesse sentido. Nem sempre o intuito do autor é o sexo, ou ainda, o sexo enquanto relação, participa dos elementos.

Finalizando este artigo, fica claro do que se trata o texto do Sr. Solano Portela: simples embuste. Tentativa infeliz de minimizar a violência de que uma minoria social é vítima por sua condição de minoria.

Uma atitude no mínimo questionável de quem professa uma religião que já foi minoritária e já sofreu igual ou pior perseguição em sua história, dentro dos mesmíssimos parâmetros. Ou que, hoje, diz pregar o amor.

Esse tipo de amor?! Dispenso.

E depois o autor ainda quer sugerir que não precisamos do PLC 122... Mas o que esperar de um site fundado por Olavo de Carvalho?

Sr. Portela, onde o senhor guarda sua máscara?

junho 20, 2009

Violência pós-Parada Gay

São 14h39 quando começo a escrever este texto. Como todo dia de sábado, acordei mais tarde que o de costume e fiquei serpenteando no sofá tentando lembrar do que tinha para fazer hoje, além da academia – acumulei novas funções no serviço, que me fizeram chegar em casa depois das 23h durante a semana. Então, estou em falta com os exercícios físicos.

Decidi, porém, não ir malhar. Se sair agora, estarei de volta apenas às 17h, com pouco tempo para me arrumar e juntar energias para algo maior e mais valoroso que manter o "corpitcho": o protesto convocado às 19h pela Associação da Parada do Orgulho GLBT (APOGLBT) e outras entidades na Av. Dr. Vieira de Carvalho, centro de São Paulo, contra a violência homofóbica pós-Parada Gay. Violência que se concretizou num atentado a bomba com dezenas de feridos e na trágica morte de Marcelo Barros, 35, vítima de espancamento.

Há apenas alguns dias, questionei neste mesmo blog o artigo do "teólogo" Solano Portela, que gastou seu "precioso" tempo para tentar "comprovar" que as estatísticas de mortes produzidas por homofobia e divulgadas pelo professor Luiz Mott, do Grupo Gay da Bahia (GGB) são "viciadas" – chegando ao despeito de dizer que, no Brasil, ser gay pode ser "mais seguro" que ser hétero no que concerne aos homicídios.

Não é difícil encontrar meu artigo em resposta a essa imbecibilidade, que se encontra no post imediatamente anterior e no Gospel Gay, no qual realço que as mortes elencadas por Mott são ou resultado ou agravadas, no que diz respeito à barbárie, pela condição de LGBT da vítima.

Creio que a violência pós-Parada deixou isso mais claro que minhas palavras. Afinal, não me consta que se tenham jogado bombas na cabeça de pessoas porque elas eram héteros e celebravam seu dia de orgulho e nem que tenham espancado alguém até a morte por gostar do sexo oposto.

Nessa história, porém, devemos ter cuidado para separar o joio do trigo. Alguns conservadores, gays inclusive, creditaram a culpa do ocorrido à Parada, e já começou, maldisfarçado, um certo "movimento" encampado por jornalistas e figuras do poder público, de retirar a Parada da Paulista, lugar onde nasceu e tem relação umbilical. Lendo as notícias publicadas na imprensa, que, em larga medida, desprezou a maior politização da edição e o convívio pacífico e festivo para privilegiar a violência no entorno e o fato de terminar mais cedo, tem-se a impressão de que a Parada foi um fiasco, mal-organizada, com poucas pessoas e um verdadeiro campo de batalha – e não foi assim.

Eu estive lá, com meu namorado, como já faço há coisa de uns nove anos. Fui um dos que se decepcionaram por chegar à Paulista à tarde e ver que todos os trios já tinham passado – mas, que fique claro, isso não é falta de organização, mas um acerto de limite de horário fechado com a Prefeitura. Corri para R. da Consolação e pude aproveitar ainda o último trio, com boa música e com um discurso megapolitizado do presidente da Parada, Alexandre Peixe dos Santos, que gritava palavras de ordem contra a homofobia e, aplaudido pela massa, declarava: "Essa Parada é nossa! Não é deles!", referindo-se àqueles que, não sendo LGBTs e não tendo qualquer simpatia por nossa cultura e nossas demandas, lá comparecem apenas para exercitar o mal.

Também o "campo de batalha" não ocorreu. Algumas brigas, sim, infelizmente. Furtos, é claro – mas, no geral, o evento continua com baixíssimo número de ocorrências para seu gigantismo e relativamente seguro. Dúvida? Junte 3,1 milhões de membros de torcidas organizadas, vá ao carnaval de Salvador ou mesmo a megaeventos feitos "para a família", como a paulistana Virada Cultural, onde me ofereceram droga sem pudor em plena rua lotada das tais famílias, e confira. As torcidas, com muito menos gente, já incendeiam ônibus e carros – e vale destacar que é um ambiente puramente masculino heterossexual. Agora, é claro que isso não tira a gravidade dos fatos que abriram este post e que merecem ser denunciados, sim

A Parada encolheu, de 3,5 milhões de há dois anos para 3,1 milhões (outro "destaque" da imprensa, que privilegiou a queda em vez do número total) – mas querem saber? Eu achei bom. Espero que ela vá privilegiando a qualidade, mesmo que isso signifique mais diminuição nos números e concentração da presença dos LGBTs. Afinal, é nossa parada. Estejamos ali cobrando direitos, ou simplesmente festejando um dia de liberdade, temos esse direito – e o direito de estar ali sem ser morto ou vítima de atentados ao voltar para casa, e aqui voltamos ao caso da violência.

Existem dificuldades enormes em organizar uma manifestação que atingiu tamanho gigantismo: 3,1 milhões continua sendo um número pra lá de respeitável, um dos maiores que a cidade de São Paulo consegue reunir, senão ainda o maior. Certamente, alguns erros da direção, porque ninguém é perfeito, e também problemas no policiamento devido à quantidade de pessoas, mas a violência não é culpa de nenhum dos três fatores isoladamente ou majoritariamente, embora muitos policiais, e eu vi isso, estejam francamente despreparados para lidar com o público LGBT, notadamente por viverem numa instituição que, sem sombra de dúvida, é também homofóbica: a polícia militar.

Então, a quem deve ser creditada a culpa? Sem querer, já respondi ao falar da polícia. À HOMOFOBIA. Foi a homofobia, aliada ou não ao racismo, que, encarnada naquele grupo de homens, levou Marcelo à morte. E também foi a homofobia de um morador do prédio na Vieira que o levou a jogar uma bomba caseira em cima de outros seres humanos. Ou será que alguém acredita na cobertura da Folha, no delegado que investiga o caso ou no psiquiatra entrevistado pelo Jornal Nacional, que minimizaram o fato e tentaram dizer que o tal morador "só" se incomodou com o barulho – como se cidadãos íntegros, via de regra, guardassem pólvora em casa para qualquer "eventualidade" e aprendessem a construir bombas caseiras na escola apenas para, no caso de se incomodar com o vizinho de baixo, fazer uma rapidinho e atirar nele...

Leitores do Estadão e evangélicos de plantão já trataram de culpar os próprios gays, como se suicidas fôssemos porque, pelo visto, adoramos brincar de bomba na Vieira de Carvalho – que não, não é frequentada pelos mais abastados...

No entanto, esquecem-se, ou jogam sua costumeira cortina de fumaça, que não somente este atentado terrorista, mas também os espancamentos, os furtos, assaltos, latrocínios na Parada não são cometidos por aqueles que vão se divertir ou cobrar direitos. Mas por pessoas homofóbicas como eles próprios, leitores conservadores e evangélicos fundamentalistas, que dizem "amar o pecado mas desprezar o pecado", pensam que gays "merecem morrer", que "isso é falta de apanhar pra tomar vergonha", preferem "um filho morto a um filho veado" e outras barbaridades que pensam em segredo, quando não manifestam publicamente. Simplesmente, como bem observou Jean Wyllys em seu blog, alguns resolveram pôr em prática essas fantasias genocidas.

A Parada é nossa, mas a violência é deles – e está na hora de dizer que isso nós não aceitamos mais! Espero você hoje, paulistano e das cidades do entorno, às 19h, na Vieira de Carvalho. Abandone sua boate, sua academia, sua transa por algumas horas. Afinal, é de cidadania que estamos falando, e, sem ela, não sobram LGBTs vivos para que aproveitar essas outras coisas faça sentido – e aproveitemos para pressionar as ilustres excelências do Senado a aprovarem o PLC 122/06, que criminaliza a homofobia e que alguns acham "desnecessário"... O manifesto da mobilização de hoje segue abaixo.


Homofobia, basta! Justiça, já!

Esta manifestação realizada na Av. Dr. Vieira de Carvalho, hoje, dia 20 de junho de 2009, expressa a indignação do movimento, da comunidade de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT) e da população solidária contra as diversas manifestações de intolerância e de agressão física ocorridas, justamente, no dia da 13ª. Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, dia dedicado à luta por direitos para LGBT.

Estamos protestando contra os atos bárbaros, ocorridos durante e depois da Parada, envolvendo vários espancamentos e roubos. Um destes covardes ataques causou a morte de Marcelo Campos Barros, um cozinheiro de 35 anos, agredido brutalmente. Outro caso absurdo de agressão homofóbica foi a bomba arremessada de um prédio na Av. Dr. Vieira de Carvalho, que feriu cerca de 30 pessoas.

Basta de homofobia e assassinatos!

Exigimos providências dos órgãos públicos, na apuração imediata e rigorosa dos fatos, permitindo a prisão e julgamento dos culpados. Estamos cobrando um maior engajamento e empenho da Secretaria de Segurança Pública, sobretudo aumentando o policiamento no dia da Parada e orientando corretamente os agentes de segurança. Há vários relatos, inclusive casos documentados, de omissão do policiamento, que deixou de efetuar prisões em flagrantes de agressores.
Vivemos, hoje, num país marcado pela homofobia e numa sociedade que não tem pudores em expressar seu preconceito contra LGBT. Diante de fatos, não há argumentos. Quantas agressões ainda acontecerão para que o combate à homofobia seja uma prioridade do Estado brasileiro?

Muita violência e pouca denúncia

Em pesquisa realizada na Parada do Orgulho LGBT de São Paulo de 2006 pela APOGLBT e pela Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH) da Presidência da República, 59% relataram uma ou mais situações de agressão ao longo da vida. A maior parte dos casos de agressão relatados (60%) ocorreu em locais públicos.

Outro ponto a destacar nesse estudo é o percentual de participantes que declarou ter sido mal atendido em delegacias por policiais (18%) devido à sua orientação sexual ou identidade de gênero. Embora a incidência de agressões motivada pela sexualidade seja alta, apenas 11% dos agredidos chegaram a procurar a polícia.

Reivindicações: queremos justiça!

- Rápida e rigorosa investigação e punição dos autores dos crimes
- Aprovação do PLC 122/2006, que criminaliza a homofobia e tramita no Senado;
- Capacitação de policiais para atuar corretamente na segurança da Parada, no atendimento de vítimas de violência e na orientação adequada de denúncias.

Assinam este manifesto:
Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT)
Articulação Brasileira de Lésbicas (ABL)
Associação Brasileira de Gays (Abragay)
Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo (APOGLBT)
Coletivo de Feministas Lésbicas (CFL)
Central de Trabalhadores do Brasil (CTB)
Conectas
Fórum Paulista LGBT
Grupo Corsa
Grupo E-jovem
Grupo Identidade
Grupo de Pais de Homossexuais (GPH)
Instituto Edson Neris (IEN)
Justiça Global
MNDH/SP (Movimento Nacional de Direitos Humanos, regional São Paulo)
Projeto Purpurina
Ativistas independentes


agosto 2, 2009

Refém por um mês do trabalho...

Não tive tempo de vir aqui e atualizar, mas vim hoje hehehe, e com um convite. Leiam o release abaixo. Estão tod@s convidad@s!


"Gosto de sexo, eu não vou negar
Gosto de cama, não vivo sem ela
Gosto de pornô, de atores bombando
Cenas pre-condom, cavalo sem sela"


O Espaço Entre Homens, da Associação da Parada do Orgulho LGBT discute, NO PRÓXIMO DIA 06/08, o tema:

BAREBACK e CINEMA PORNÔ: O IMPACTO NO COMPORTAMENTO GAY

'Bareback' é uma palavra que, em inglês, significa originalmente cavalgar sem sela.
Mais recentemente, foi adotada pelos gays para se referir a um conjunto de pessoas que têm fetiche por sexo sem camisinha e não levam em conta o risco de infecção por DST/Aids, ou mesmo utilizam essa probabilidade como um 'tempero a mais' – mas terminou adquirindo um terceiro significado: virou gíria e tem sido usada para se referir a qualquer sexo sem camisinha.
Com esse último significado, 'bareback' foi adotado pela indústria do pornô gay: filmes gays bareback = filmes gays sem camisinha.

Desde o início da epidemia de HIV, o cinema pornô gay, ao contrário do heterossexual - que permanece refratário até hoje -, logo adotou a camisinha como padrão em suas cenas. Os filmes anteriores a isso ficaram conhecidos como 'pre-condom' (pré-camisinha).

Os maiores estúdios e principais produtores , como Titan, Falcon, ChiChi LaRue, BelAmi, Colt e Lucas Entertainment, que constituem o que chamamos de "indústria mainstream" mantêm a estratégia do sexo seguro até hoje. O mesmo é seguido pelas produtoras nacionais.

No entanto, de uns anos para cá, produções com características mais amadoras, geralmente gravadas no Leste Europeu e distribuídas sobretudo pela internet, trouxeram uma nova onda ao cinema pornô gay: são os filmes bareback, que, a exemplo das produções mainstream heterossexuais, não usam camisinha.

Inicialmente marginais, esses filmes têm crescido em número e conquistado um público cada vez maior, a ponto de fazer frente aos maiores estúdios – e, dizem os especialistas, de dominar o mercado nos próximos anos!

E agora?

A maior vulnerabilidade dos gays ao HIV é conhecida.

- Seriam esses filmes uma resposta a uma demanda de público, que se queixa(va) de não ter produções mostrando sexo sem camisinha, como os heterossexuais sempre tiveram?

- Será que eles estimulam o comportamento de risco na vida real?

- É uma estratégia comercial ou uma irresponsabilidade social?

- Por que causam mais polêmica que os filmes héteros, indústria em que praticamente todos os filmes são bareback?


Venha discutir com a gente esses e outros tópicos, com direito a comes e bebes, fotos e análises de atores pornôs característicos de cada período (anos 70 até os dias de hoje) e... Trechos de filmes!

Contamos com sua presença!

Quando?
quinta, 06/08/2009, às 19h

Onde?

Praça da República, 386 - Sala 22 - Centro
01045-000 - São Paulo, SP
Tel.: (11) 3362-8266

Quem?

Homens gays, bis, trans, múlti, pans, uni... Mulheres, travestis, héteros... Todos são bem-vindos!
O convidado especial é João Marinho, editor da revista Sex Boys, com 5 anos de experiência no mercado erótico nacional, e apreciador inveterado de filmes pornôs.

Sobre o Entre Homens
Gerenciado por Murilo Sarno, o Espaço Entre Homens é uma iniciativa da Associação da Parada do Orgulho GLBT que visa a refletir com o público gay, numa roda de conversa livre e espontânea, temas relacionados ao universo gay masculino. Todos são convidados a participar, e a entrada é franca.

Contato para a imprensa:
João Marinho - MTB 42048/SP
joaomarinho@uol.com.br

agosto 3, 2009

Entenda o caso Rozangela Justino

6 perguntas importantes sobre o julgamento que manteve a censura pública à psicóloga que diz "resgatar" gays para a heterossexualidade

1. A pena de Rozangela Justino foi branda?
Não. Na verdade, a questão não é se a pena foi branda ou não foi. A questão é que a censura pública era a única pena cabível no julgamento pelo CFP (Conselho Federal de Psicologia). Por quê? Continue lendo.

2. De onde surgiu a sentença de censura pública?
Levantamentos feitos por colaboradores da ABGLT (Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais) demonstram que o processo que originou a sentença de censura pública foi o movido, em 2003, pelo sr. Eugênio Ibipiano, do Grupo 28 de Junho.

Segundo consta, em 2003, Eugênio Ibipiano fez uma representação contra Rozangela Justino no Conselho de Ética do Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro (CRP-RJ), no qual ela se encontra filiada como profissional. O motivo foi o fato de a psicóloga ter se apresentado em programas de tevê afirmando que a homossexualidade era um desvio.

Posteriormente, em 2007, foi divulgado pelo próprio Ibipiano, em listas de militância gay, o resultado do processo: a penalidade de CENSURA contra Rozangela Justino. Também foi informado que Justino havia recorrido desse resultado.

Infelizmente, o contato com Eugênio Ibipiano não se encontra disponível atualmente, de maneira que nossas informações se limitam a estas por enquanto. Mesmo porque, como a representação é algo sigilosa, somente as partes envolvidas têm acesso aos autos.

A lógica, porém, nos permite concluir que o julgamento feito pelo CFP em 31/07/2009, que tratava justamente de reverter ou não a pena de censura que pesa contra Rozangela, foi precisamente o desse recurso impetrado pela psicóloga para anular o resultado do julgamento em primeira instância da representação feita em 2003.

Como não há notícia de qualquer recurso interposto por Eugênio Ibipiano, pelo Grupo 28 de junho, ou outra pessoa que tenha feito parte daquela representação, a fim de agravar a pena imposta a Rozangela Justino em 2007, o único recurso a ser analisado era o dela, de reverter a pena.

Logo, dentro do princípio de proibição ao reformatio in pejus (reforma para pior), que veta que um recurso interposto por alguém reverta em pena pior para este mesmo alguém, o CFP só tinha duas decisões possíveis: manter a pena de censura contra Rozangela, ou diminuí-la. A decisão foi pela primeira alternativa, como vimos.

3. Rozangela podia perder o registro profissional?

Parte da imprensa divulgou isso, mas, dentro desta ação, a resposta é não. Isso só poderia acontecer se houvesse um recurso por parte do reclamante para agravar a pena, o que não era o caso, como vimos. O CFP não podia piorar a pena, em um recurso movido pela própria ré.

4. Mas ela ainda pode perder o registro?
Pode, mas agora só a partir de outras representações feitas contra ela. Existe, por exemplo, uma representação de autoria da ABGLT, aberta em 2007, no CRP-RJ. Aliás, essa coincidência de datas entre a abertura da representação movida pela ABGLT e o julgamento da representação de Eugênio Ibipiano fez com que parte da militância e dos gays considerasse que a pena aplicada contra Rozangela fosse resultado da ação da ABGLT. Não foi.

A representação da ABGLT, que tem bases distintas da de Eugênio Ibipiano e contou com o envio de textos de autoria de Rozangela Justino e com a assinatura de dezenas psicólogos do CRP-RJ e de outros Conselhos Regionais em todo o Brasil, continua à espera para análise no CRP-RJ e, portanto, ainda não foi julgada.

Talvez fosse interessante outras entidades verificarem a possibilidade de fazer novas representações contra Rozangela Justino. Afinal, as penas para processos do tipo são graduais – e, ao que parece, Rozangela Justino continua em sua tentativa de "curar gays", uma vez que a repórter do jornal Folha de S. Paulo, por exemplo, conseguiu marcar uma consulta.

5. A pena confirmada pelo CFP é irreversível? Ela vai ser censurada agora, de vez?
Em relação à ação de Eugênio Ibipiano, a pena confirmada pelo CFP significa que, dentro dos Conselhos Regionais e Federal, Rozangela Justino não possui mais recursos. No entanto, Rozangela Justino ainda tem outros recursos à disposição: como seu advogado mesmo anunciou, ela pode (e deverá) recorrer à Justiça federal contra a decisão do CFP. Nesse caso, o processo passa para a justiça comum e segue seus trâmites próprios, ou seja, a guerra ainda não acabou.

Uma outra possibilidade é que a resolução CFP 01/99, que proíbe aos psicólogos promoverem uma "cura" da homossexualidade, que não existe até porque ela não é doença, seja tornada sem efeito. Esta é a resolução que embasa os processos contra Rozangela.

Essa possibilidade existe? Infelizmente, sim. O deputado federal Coronel Paes de Lira, do PTC de São Paulo, que assumiu a cadeira de Clodovil Hernandez após a morte deste, protocolou na Câmara dos Deputados um projeto de lei que propõe justamente a revogação da resolução CFP 01/99.

Caso o projeto seja aprovado, não apenas Rozangela, mas qualquer outro psicólogo poderá promover tais "curas", levando ao sofrimento de milhares de gays brasileiros, além de permitir toda sorte de charlatanismo e a promoção de dogmas religiosos anacrônicos com vestes de ciência moderna. É um projeto perigoso, que requer a atenção do movimento gay e de qualquer pessoa de bem e contra o preconceito, no sentido de debelá-lo.

6. Censurar Rozangela Justino não é um atentado à liberdade de expressão? Ela não deveria poder dizer e divulgar o que quer?

Este é o argumento da psicóloga, mas é um argumento distorcido.

Em primeiro lugar, a verdade é que não existe liberdade de expressão ilimitada - esse direito é limitado precisamente pelo direito do outro, e requer uma dose de responsabilidade: você até pode exprimir o que quer, mas o outro também tem o direito de reclamar uma ofensa na Justiça, e pode eventualmente ganhar a ação.

Além disso, no que tange às profissões regulamentadas, como a de psicólogo, a responsabilidade aumenta.

Tais profissões, pautadas pela ciência, não podem permitir o charlatanismo. Um médico não pode, por exemplo, oferecer um "tratamento milagroso e certo" para uma doença incurável, nem um farmacêutico ou químico atribuir a substâncias propriedades que elas não possuem, ou um engenheiro prometer que um material tem uma resistência que não é sustentada por dados empíricos. O psicólogo, que trabalha com a saúde mental, deve ter a mesma preocupação, e é sobre isso que se assentam as decisões contra Rozangela Justino.

Ademais, a pena do CRP-RJ, confirmada pelo CFP, não cassa o direito de liberdade de expressão de Rozangela Justino garantido pela Constituição de 1988. Ela veta determinadas ações dela enquanto profissional de psicologia.

Como cidadã, Rozangela pode continuar dizendo o que quiser dos homossexuais - todas as barbaridades que costumeiramente diz -, sendo, se for o caso, chamada à responsabilidade se algum ofendido acionar a Justiça.

O que ela não pode é, enquanto psicóloga, agir em desacordo com os preceitos éticos de sua profissão e oferecer aos pacientes intervenções questionáveis que não encontram fundamento científico-empírico suficiente. Não só psicólogo, mas qualquer outro profissional que age de tal forma irresponsável necessita arcar com as penalidades cabíveis, ou, no limite, deixar de seguir aquela profissão e se tornar outra coisa.


Comentário: alguns amigos me informaram que, em seu blog, Rozangela Justino "comemora" a decisão do CFP de manter a censura pública.

Como, por vezes, me abstenho de má leitura, não posso confirmar - mas, se for verdade, tal comportamento apenas revelaria o quanto essa gente é perigosa.

Isso porque o discurso de "ainda bem, o CFP 'só' ficou com a pena de censura" é uma verdadeira cortina de fumaça - passa a impressão de que o CFP poderia decidir por uma pena mais severa, mas não o fez "por obra de Deus", porque Rozangela tem "embasamento científico", ou qualquer outra argumentação do tipo, e que, portanto, a "pena branda" teria sido uma vitória.

No entanto, como vimos, o CFP não podia aumentar a pena. Dessa forma, o fato de todos os conselheiros terem votado, de forma unânime, para a manutenção da censura não foi uma vitória, mas uma derrota para Rozangela Justino.

Com essa decisão, o CFP acena que entende que o CRP-RJ agiu corretamente em impor a censura pública à psicóloga. CRP-RJ que, por sua vez, vale lembrar, tomou tal decisão diante da fundamentação da ação de Eugênio Ibipiano. Em suma, o que sobra é: os Conselhos sinalizam que entendem que existe, sim, um problema ético na prática da dita psicóloga...

Tomemos, portanto, cuidado com os discursos de pessoas dessa estirpe. Evangélicos fundamentalistas, sobretudo, são muito eficientes em distorcer fatos para parecer que eles são perseguidos e alcançam "vitória em Cristo", quando, na verdade, são eles os opressores e passíveis de receber, com justiça, a paga por espalhar o preconceito e a discriminação contra aqueles que deveriam ser seus irmãos em humanidade, numa atitude incompatível com o ideal de amor e justiça que dizem pregar em conformidade com Cristo.

agosto 11, 2009

Homofobia terapêutica

Rozangela JustinoRozangela Justino é um nome que o leitor jamais deveria ouvir falar – mas quis o destino que fosse assim. Evangélica, psicóloga e agora submetida à censura pública pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP) em 31/07/2009, ela se dedica a "curar" homossexuais, embora, com esperteza, evite a palavra "doença" e afirme apenas "tratar" gays em conflito com seus valores.

Sabemos que esses conflitos existem. No entanto, em vez de buscar a razão por trás deles e tornar a pessoa agente de sua própria vida, Justino vai na contramão: por que ajudá-la a solucionar a situação? Melhor formatá-la à "sociedade".

Já vimos esse filme.

Por décadas, gays foram cobaias de todos os procedimentos possíveis e imagináveis de "reorientação sexual", inclusive alguns bárbaros, como a emasculação.

Os resultados, confirmados recentemente pela APA (American Psychological Association): questionáveis e duvidosos, somados a grande sofrimento por parte da maioria. Ora, mesmo que a "reorientação" existisse, seria ético fornecer um "tratamento" cujos custos não sustentam os "benefícios"? E por que apenas se defende a reorientação para gays, mas nunca para os héteros?

A resposta é óbvia: porque, misturando religião e psicologia, Justino e sua trupe consideram que a homossexualidade tem um erro fundamental, e isso, que se constitui em um julgamento moral a priori, não tem base científica, mas religiosa. Portanto, fique esperto: parece terapia, mas é homofobia.

---
Editorial de minha autoria publicado na revista Sex Boys 62. Acima, a foto de Rozangela Justino sem maquiagem, óculos escuros e peruca. Ela tem saído disfarçada para criar um factoide, como se estivesse ameaçada por alguma "milícia gay" ou "brigada cor-de-rosa", algo que efetivamente não existe.

agosto 13, 2009

O nazismo de Rozangela Justino

Não vejo nenhum homossexual trabalhando pela destruição da família como tanto gostam de acusar os fundamentalistas religiosos! Ao contrário, vejo homossexuais lutando pelo direito de se unirem diante da lei, pela adoção de crianças abandonadas por heterossexuais a fim de lhes proporcionarem uma vida saudável, familiar, digna e honesta. Vejo homossexuais lutando por constituírem suas famílias e lutando pelo direito à igualdade diante da lei que lhes é negada pelo trabalho perverso de legisladores que professam uma fé tão pervertida quanto à de Rozângela Justino. Vejo homossexuais lutando pelo direito de existir, tendo sempre que fazer frente ao desejo sombrio, este sim nazista, de eliminá-los, de silenciá-los. Não vejo homossexuais tentando reverter a sexualidade de nenhum outro ser humano, mas lutando legitimamente pelo pleno direito de ser quem é.

Que delícia ler esta argumentação de Márcio Retamero no site A Capa, no artigo que fala sobre o "nazismo" de Rozangela Justino. Leiam-no. Vale a pena! Me senti com a alma lavada.

agosto 17, 2009

O nazismo de Rozangela Justino - e de alguns leitores de Veja

Recebi da ABGLT um clipping sobre a entrevista que a jornalista Juliana Linhares com a psicóloga evangélica Rozangela Justino. Segue para análise:

Parabéns à jornalista Juliana Linhares pela coerência das perguntas feitas na entrevista com Rozângela Alves Justino. Infelizmente não podemos parabenizar a entrevistada. A psicóloga fere frontalmente os princípios da ciência, a Organização Mundial de Saúde e o código de ética de sua profissão ao pretender mudar a orientação sexual dos homossexuais com base em suas convicções religiosas. Na mesma semana dessa entrevista, a Associação Americana de Psicologia (APA) declarou que "não há evidência alguma que apoie a afirmação de alguns profissionais de que a orientação sexual pode ser alterada por terapia". No exercício da profissão de psicólogo, deve haver o respeito à cidadania das pessoas LGBT, e não o incentivo ao preconceito, à discriminação e ao estigma. Nas palavras da juíza Emília Maria Velano, em sentença sobre a alegação de inconstitucionalidade feita por Rozângela quanto à Resolução 001/99 do Conselho Federal de Psicologia: "O Conselho Federal de Psicologia tem a obrigação de reprimir esse comportamento, principalmente no que concerne ao tratamento de homossexuais em consultórios de psicologia, como se fossem doentes sujeitos a transtornos".
Toni Reis
Presidente da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT)
Curitiba, PR

VEJA marcou um gol de placa entrevistando a psicóloga Rozângela Alves Justino (Amarelas, 12 de agosto). Essa entrevista entra para a história do bom jornalismo. A voz que faltava foi ouvida: a psicóloga punida pelo Conselho Federal de Psicologia por atender os homossexuais que a procuram. A jornalista Juliana Linhares foi incisiva nas perguntas que fez, e as respostas da psicóloga foram diretas e muito reveladoras. Parabéns pelo fino senso jornalístico da revista, ao perceber o anseio dos leitores por ouvir essa voz. Parabéns à psicóloga por arriscar sua carreira afirmando que continuará fazendo o que em consciência julga seu dever profissional fazer.
Luiz Roberto de Barros Santos
São Paulo, SP

A 43ª Assembleia-Geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), em 1990, retirou a homossexualidade da sua lista de doenças ou transtornos mentais, suprimindo-a do Código Internacional de Doenças (CID-10) a partir de 1993. A OMS diz explicitamente: "A orientação sexual por si não é vista como transtorno". Em consonância com essa perspectiva, o CFP, responsável pela regulamentação profissional dos psicólogos no Brasil, publicou em 1999 resolução que proíbe o tratamento da homossexualidade como doença e, portanto, a oferta de cura a algo que não é uma enfermidade. O conselho, dentro de suas atribuições, atua para que o desenvolvimento da psicologia no Brasil esteja alinhado com as necessidades de uma sociedade democrática, inclusiva e respeitadora da diversidade.
Humberto Verona
Presidente do Conselho Federal de Psicologia (CFP)
Brasília, DF

Parabéns, VEJA, por publicar uma entrevista tão oportuna com a psicóloga Rozângela Alves Justino. Sou médico pediatra há mais de quarenta anos e sempre considerei o homossexualismo um distúrbio do comportamento, e acho que, como tal, ele deve ser tratado. Quando uma mãe se queixa de que seu filho está com essa tendência, aconselho-a a procurar um psicólogo ou psiquiatra para que ela seja demovida. A "homofobia", tão falada hoje, nada mais é do que um sentimento natural daqueles que respeitam as leis de Deus e da natureza.
Silas Leite Prado
Médico pediatra
Belo Horizonte, MG

Apoio todas as afirmações da psicóloga Rozângela Alves Justino e seu trabalho na reabilitação de homossexuais. Até a 9ª Revisão da CID, realizada em 1975, esse comportamento era classificado como perversão sexual. Em 1985, foi classificado como distúrbio social, e na 10ª REV CID, de 1995, não foi mais considerado perversão. Antigamente, a homossexualidade era transgressão penal (Oscar Wilde foi preso por isso), depois passou a ser perversão sexual. Hoje é obrigação sexual. Atualmente, pervertidos somos nós, os heterossexuais (!).
Victor Leonardo da Silva Chaves
Médico
Rio de Janeiro, RJ

Mesmo sendo heterossexual, gostaria de expressar minha indignação no que diz respeito à entrevista que a psicóloga Rozângela Alves Justino concedeu a VEJA. Suas respostas corroboram a tese de que, de tanto ouvirem possíveis vulnerabilidades alheias, esses profissionais acabam entrando em parafuso e, em vez de ajudar, colocam mais "minhocas" na cabeça dos pacientes. Ponto para o Conselho Federal de Psicologia.
Ricardo Granatowicz
São Paulo, SP

Perplexo, triste, em choque. Foi assim que me senti ao ler a entrevista. Como, em plena era do Twitter, ainda é possível existir uma profissional que exerce sua profissão dessa forma? Não seria mais uma charlatã criando uma fórmula para encher seus cofres? Veio-me à cabeça o dia em que concedi entrevista a este mesmo veículo, e quando, com a mesma jornalista Juliana Linhares, decidi abrir o meu coração e falar da minha vida. Sofrimentos, preconceitos que um gay sofre em nossa sociedade desde criança. Pensei: o que será que mudou? Lembrei-me das centenas de cartas que recebi de mães de filhos gays dizendo que com a minha história passaram a enxergar o coração de seus filhos de outra forma. Vivemos em uma sociedade com formatos predeterminados desde o nosso nascimento. Mudar isso e fazer com que sejamos respeitados é muito difícil. Estamos vencendo barreiras e mostrando que somos iguais. Na condição de gay e descendente direto do povo judeu, senti-me desrespeitado em diversas áreas. Considero que essa senhora mereceria as punições mais severas possíveis por não saber fazer uso da palavra como psicóloga e por estar pregando um retrocesso em nossa sociedade.
Bruno Chateaubriand
Rio de Janeiro, RJ




O que dizer sobre esses comentários? Em primeiro lugar, fico extremamente feliz com a posição do CFP, com o conteúdo incisivo do comentário da ABGLT - o mesmo Toni Reis esteve enfrentando Justino num programa de rádio recentemente e lhe deu uma "lavada" - e com os demais comentários pró-diversidade.

Bruno Chateaubriand foi ao cerne, mostrando que o problema dos gays que não se aceitam ao ponto de irem buscar "ajuda" com pessoas como Justino não é serem gays - mas sofrerem o estigma social e cultural por isso, um estigma que pessoas da igreja de Justino fazem questão de manter.

Vale, no entanto, duas observações em relação aos comentários dos dois médicos. É curioso que o pronunciamento de dois tenha sido de apoio a Justino. Será que medicina continua tão conservadora? Lembro-me que uma amiga minha, lésbica, ao se consultar com um cardiologista, também dele ouviu uma "pregação" sobre o "distúrbio" ou "pecado".

Tenhamos cuidado com isso, pois, em nossa sociedade, o discurso proferido por um médico ou psicólogo tem poder - mas não significa que estejam certos.

O tal médico pediatra, por exemplo, comete um verdadeiro crime: quantas crianças não sofreram por esse tipo de atitude, em 40 anos de sua profissão? Mães iludidas que vão a psicólogos e psiquiatras pensando em "cura" de um distúrbio que não existe (repitam comigo: não existe) e crianças abusadas por pessoas que, por estudarem a mente humana, se arvoram na condição de semideuses, como se pudessem manipular impunemente o íntimo do ser de cada uma delas.

Cumpre lembrar que, no Brasil, o Conselho Federal de Medicina mesmo se antecipou à OMS e passou a desconsiderar a homossexualidade um transtorno ainda em 1985. Não foi ontem, nem hoje. Já faz mais de 20 anos! Se Silas Leite Prado, profissional há 40 anos, continua com esse tipo de abordagem, só significa uma coisa: no que tange à homossexualidade, ele deixou de se atualizar por 20 anos, o que é muito triste para um pediatra.

Já o comentário do também médico Victor Leonardo da Silva Chaves é vazio em si mesmo. Alguém precisa avisar o doutor - e, aliás, também ao Silas - que ser hétero (gostar do sexo oposto) não é sinônimo de ser homofóbico.

Gays não perseguem héteros e nem querem "convertê-los" a nada, como explicou muito bem o reverendo Márcio Retamero. O inverso, como mostra o caso de Justino e os comentários desses dois médicos, é que é verdadeiro.

Ser hétero não é ser homofóbico, e a convivência entre gays, héteros, bis, unis, múltis e qualquer espectro da sexualidade humana é possível e desejável. Os gays não lutam contra os héteros. E como poderíamos? A começar, nossos próprios pais são, via de regra, heterossexuais. Então, por que existem tantos héteros que caem nesse conto da carochinha?

Se há alguém que "precisa" (bem entre aspas, pois nossas demandas são pró-gay, e não "antifulano" ou "antibeltrano") se preocupar com o avanço do direito gay são os homofóbicos. E, como já disse, não são sinônimos. Seja um hétero consciente e abrace a diversidade.

Ah, e aproveite para anotar os nomes desses dois médicos e procurar evitar consultas com eles... Eu teria VERGONHA de ser um médico e me prestar o papel de contribuir para que a vida de parte da população brasileira se torne pior - e, vale dizer, menos saudável. Será que isso se harmoniza com o juramento de Hipócrates? E, em que escola de medicina estudaram para não saber que, na NATUREZA, comportamento gay existe e, portanto, não é contra ela?

Todos os comentários são oriundos da revista VEJA (fonte)

agosto 19, 2009

Segurança do McDonald's discrimina travesti

Acabou de acontecer.

Saí aqui da redação, na R. Haddock Lobo, em São Paulo, por volta das 16h para ir "almoçar" e me dirigi à Loja AUG-033 do Mc Donald's, na Av. Paulista, 2.034, ao lado do Center 3, nas proximidades da Estação Consolação do Metrô e quase em frente ao Conjunto Nacional.

Estava eu comendo meu sanduíche quando uma travesti entrou na loja e foi abordada por um dos seguranças (então acompanhado de um garoto negro magro), que tentou obstruir sua entrada. Nervosa, ela reivindicou o ingresso e disse que ia chamar a polícia, no que o segurança ficou dizendo "chama! Eu vou chamar a Polícia", como se a ameaçasse por, sendo ela travesti, ela que se daria mal com isso. Para piorar, o segurança ainda declarou que "para começar, isso [estar trajado de mulher] é errado".

Ela se dirigiu aos caixas, ralhando com o segurança e foi atendida devidamente e quis falar com o gerente. Mesmo assim, o segurança ficou em redor, como forma de intimidação, o que não a impediu de reclamar com o gerente, e cobrando respeito, no que o segurança disse: "Então respeite o espaço onde você está". A travesti respondeu que não era marginal e cobrou o gerente, que usava óculos, que informou em voz baixa que falaria com ele [segurança], quando a travesti falou para ele tomar providências. Ao falar novamente em polícia, o segurança a desafiou a chamar e depois, num breve recuo, disse que "ia chamar a polícia para ela" (dando a entender que porque ela havia pedido) - e depois se retirou.

Nessa hora, eu, tomando meu suco de frutas vermelhas, estava ao lado, para ver se ocorria qualquer agressão mais severa e ficar ao lado dela se fosse preciso. Não houve, mas o segurança ainda se dirigiu a um grupo de, creio eu, motobóis, para criticar a travesti à boca miúda. Ela pegou seu lanche e foi sentar à mesa, no que a abordei, me identifiquei e forneci meu nome, RG e telefone para no caso de ela precisar de alguma testemunha. Ela, que se identificou como Laura, também me forneceu os telefones dela, me agradeceu, simpática (apesar de ainda nervosa) e se disse consciente de seus direitos.

Antes disso, eu tinha aproveitado o momento em que ela conversava com o gerente para fotografar o segurança em questão. Por sorte, temos eu e ela as NFs que comprovam nossa ida ao McDonald's. Minha nota indica o horário de 16:54:21, que está incorreto (sintema do McDonald's), pois não eram ainda 16h30 - eu, de lá saí, por volta desse horário, por causa de exigências profissionais, mas reiterando a ela que, se algo acontecesse a mais, não hesitasse em me ligar. Mesmo assim, como ela pediu a dela, o horário deve sair próximo do meu, o que comprova o momento em que eu lá estava, além do horário de registro da foto do celular que tirei.

A foto do segurança e também dos supostos motobóis que se encontravam próximos a ele está aqui. Eu informei à Laura que tinha tirado a foto do segurança. Liguei há pouco para Laura e ela confirmou que tudo correu bem em sua saída, mas estava indo à delegacia registrar o B.O. À noite, ela deve me ligar.

Vale informar que Laura estava elegantemente trajada com um conjunto de blusa longa e calça comprida com sandália, na cor bege, cabelo preso e lábios pintados de vermelho. Ou seja, nada diferente do que uma mulher, ou trans, de sua idade (seguramente ela passa dos 30) não usasse no mesmo ambiente.

Fica aqui registrado para vcs, junto à minha indignação. Ajude a divulgar, para que casos assim não aconteçam mais - e que o McDonald's e o gerente da AUG-033 tomem providências! Lei 10.948/2001, em São Paulo, lembram?

setembro 12, 2009

Direito de discriminar?

Sexta-feira, 11 de Setembro de 2009
Arquivada ação de entidade evangélica contra lei que proíbe discriminação a homossexuais

O ministro Eros Grau, do Supremo Tribunal Federal (STF), arquivou nesta quinta-feira (10) a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 4294, ajuizada pelo Conselho Interdenominacional de Ministros Evangélicos do Brasil (Cimeb) contra a Lei paulista 10.948/01, que penaliza administrativamente quem discriminar alguém pela orientação sexual.


O ministro apresentou dois motivos para arquivar o processo. Primeiro, a falta de representatividade nacional da entidade. Segundo ele, o Cimeb apresenta-se formalmente como entidade de classe de âmbito nacional, um requisito para ajuizar ação direta de inconstitucionalidade. Mas, como explica Eros Grau, essa “simples referência não é suficiente para legitimá-lo [o Cimeb] à propositura de ação direta, nos termos artigo 103, inciso IX, da Constituição do Brasil”, é necessário que esse âmbito de atuação se configure, de modo inequívoco.


O outro argumento do ministro é quanto à falta de pertinência entre a norma questionada e a finalidade do Conselho. “A jurisprudência do STF é no sentido de que incumbe à associação de classe de âmbito nacional demonstrar a pertinência temática entre seu objetivo social e a norma que pretende ver declarada inconstitucional, requisito ausente na presente ação”, concluiu Eros Grau.


O Cimeb questionou a lei sob o argumento de que ela trata de tema a respeito do qual somente a União pode legislar. Assim, seria inconstitucional uma lei sobre o assunto, editada em âmbito estadual.

RR/IC


Fonte: www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=113135

Sempre me questionei de onde vem a sanha dos evangélicos de continuar pisando em cima de um grupo já tão carente de direitos e vítima de preconceito. Com o crescimento cada vez mais preocupante do islã, com as vidas de tantos católicos a serem "salvas" (eles consideram a igreja católica apóstata), fomes, guerras, vítimas de tornados, por que, meu Deus, por que se preocupar em estigmatizar ainda mais um grupo já estigmatizando e tentar mantê-lo eternamente como cidadão de última classe? Existe lógica, ainda mais a do amor que eles dizem pregar, em lutar no SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, pelo "direito" a discriminar os outros?! Que eles poderão argumentar quando ELES forem discriminados? É esse o tipo de amor que Jesus pregou? Esse amor travestido, eu não quero...

setembro 23, 2009

Entre TODOS os homens, até os trans!

Ele é ator pornô, e dos bons. Já foi até premiado com o Troféu AVN, o Oscar do segmento. Careca, de voz grossa, músculos definidos, piercing, tattoos e um bigode respeitável, Buck Angel é extremamente másculo e encarna o biótipo “daddy”, que faz a cabeça de muitos gays.

Mas Buck não é um homem como os outros. Até os 20 e poucos anos, ele era modelo, tinha seios, vagina e era considerado uma mulher bonita – e, na verdade, vagina, ele ainda tem! Buck Angel é um homem trans.

O Espaço Entre Homens, da Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo discute, NO PRÓXIMO DIA 01/10 (quinta-feira), o tema:

HOMENS TRANS: o masculino no corpo de mulher

A existência dos homens trans, ou transexuais FTM (do inglês “female to male”), ganhou a grande imprensa quando, em 2007, Thomas Beatie, então com 34 anos, resolveu engravidar no lugar de sua esposa, Nancy, que não podia ter filhos por ter necessitado se submeter à retirada do útero.

Beatie havia nascido com o sexo biológico feminino, mas se tornara fisicamente homem havia cerca de dez anos. Para engravidar, recorreu à inseminação artificial e suspendeu o tratamento hormonal com testosterona. Este ano, o casal teve seu segundo filho, também por meio de uma gravidez de Beatie.

De maneira similar a Buck Angel, Beatie retirou os seios, mas manteve todos os órgãos reprodutivos. Outro exemplo de homem com vagina é o fotógrafo Loren Cameron. Isso, por si só, já põe em xeque a definição de transexual no senso comum: aquele, ou aquela, que realiza ou sente necessidade de realizar mudanças em seus genitais.

Esse, porém, é só o “primeiro mistério” que cerca os homens trans. Menos famosos e menos comentados que as mulheres trans, ou transexuais MTF ("male to female"), ainda pairam muitas dúvidas sobre eles.

- Como eles se sentem?

- Como se descobrem?

- Como vivem a transexualidade?

- Que anseios possuem?

- Como se dá a transformação?

Por isso, o Entre Homens, que é um espaço para todos os homens, de todos os sexos, cores, tipos e orientações sexuais, abrirá um canal por meio do qual eles possam se expressar.

Com a participação especial de um grupo de homens trans, venha conhecer mais sobre os Thomas, Bucks e Lorens que temos no Brasil e em nossa cidade! Contamos com sua presença.

Quando?
01/10/2009, quinta-feira, às 19h

Onde?
Praça da República, 386 - Sala 22 - Centro

01045-000 - São Paulo, SP
Tel.: (11) 3362-8266

Quem?
Homens trans, mulheres trans, homens biológicos, gays, héteros, bis, lésbicas, travestis, mulheres biológicas, crossdressers e todos que queiram saber mais sobre nossa diversidade sexual e identidade de gênero! A entrada é franca, para qualquer pessoa, e com direito a comes e bebes.

Informações complementares
pensamentoslazarentos.wordpress.com/2008/03/12/two-holes-are-better-than-one/
ou
transhomembrasil.blogspot.com/2008/05/entrevista-grfica-voc-decide-se.html?zx=20a29fb98c3859c7
Entrevista de João Marinho com Buck Angel.

Sobre o Entre Homens
Gerenciado por Murilo Sarno, o Espaço Entre Homens é uma iniciativa da Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo que visa a refletir com o público gay, numa roda de conversa livre e espontânea, temas relacionados ao universo gay masculino.

Contato para a imprensa:
João Marinho - MTB 42048/SP
Tels.: +55 9775-8893, 3217-2640
jm@joaomarinho.jor.br

Créditos das imagens: Reprodução/Divulgação: Arquivo pessoal/Eroszine.com

fevereiro 25, 2010

ENTRE HOMENS - 01/03/2010

O Espaço Entre Homens volta de merecidas férias e vai discutir a presença gay no Carnaval no próximo dia 1º de março. Confira o release aqui! - e não deixe de divulgar e comparecer!

março 9, 2010

ENTRE HOMENS - 08/03/2010

Ontem, teve o Entre Homens sobre religiões friendly, pró-gays! (www.joaomarinho.jor.br/downloads/eh/Release_EH_08032010.html). Adorei. Presença de Arthur Cavalcante, reverendo anglicano da Paróquia Santíssima Trindade; Rubens Oliveira, umbandista; Pr. Cristiano Valério, da Igreja Metropolitana; Pr. Kim; Adriana de Jesus, Maria de Fátima dos Santos e Núbia dos Santos, budistas; e Denis Zoqbi, espírita kardecista!

Valeu a pena, e espero, em breve, colocar meus comentários sobre o encontro. Foi mara saber que existem religiões que não condenam a homossexualidade - algumas delas, cristãs.

maio 4, 2010

Jornada de debates e filmes do iPrEx

Alguns sabem, outros não... Mas eu apoio o iPrEx, a Iniciativa Profilaxia Pré-Exposição. Sou membro da CAC, a comissão responsável por fazer a interface entre o estudo e a comunidade gay.

Tá, eu sei, falei grego.

Começando do começo... O iPrEx é um estudo conduzido, no Brasil, pela Faculdade de Medicina da USP, que busca responder uma pergunta simples: tomar um medicamento antirretroviral, já usado no exterior para o tratamento de HIV/Aids, evita que uma pessoa que não tenha o HIV o adquira?

Minha aposta: sim. Afinal, mãe soropositiva e filho soronegativo trocam fluidos por 9 meses, e os remédios contra o HIV conseguem evitar, com 98% de eficácia, que a infecção atinja o filho.

Mesmo assim, é lógico que isso é insuficiente para bater o martelo no assunto. É preciso haver uma pesquisa científica séria, com voluntários – e é isso que é o iPrEx.

A iniciativa também é importante porque é um dos poucos estudos que oferece a possibilidade de uma alternativa complementar à camisinha na proteção ao HIV para gays e afins – para os héteros, já estão em estudo géis vaginais e a circuncisão, por exemplo.

E precisa? Precisa.

A camisinha provavelmente seguirá, ainda por muito tempo, como o meio mais efetivo e eficaz de evitar a infecção pelo HIV. No entanto, a verdade é que existem pessoas que não usam, ou resistem a usar – além daqueles que usam, mas, por vez ou outra, acabam derrapando.

Ter alternativas é interessante, inclusiva para os casais sorodiscordantes, que queiram não apenas aumentar a intimidade, como também, especialmente no caso dos héteros, constituir família biológica – e fertilização in vitro e lavagem de esperma não são propriamente alternativas baratas.

Para esclarecer dúvidas sobre si mesmo, além de divulgar informações sobre o si mesmo, o iPrEx promoverá uma jornada de filmes e debates, que deu origem a este post. O convite está abaixo. Vale a pena participar.

Mais sobre o iPrEx, numa reportagem de Thais Iervolino para a revista Sex Boys.

About militância

This page contains an archive of all entries posted to ::: herege: blog in the militância category. They are listed from oldest to newest.

notícias is the next category.

Many more can be found on the main index page or by looking through the archives.

Powered by
Movable Type 3.33