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maio 27, 2009

Você conhece seus valores?

Valores morais são uma questão complicada, mas penso que mais porque as pessoas complicam do que porque sejam complicados em si mesmos.

Em uma sociedade plural como a nossa, não soa extravagante dizer que os valores são relativos - e, aqui, cabe um certo cuidado com a palavra, porque existe um mal-entendimento de que, ao dizermos que algo é "relativo", isso significa que, de pronto, discordamos de sua existência e que "pode tudo", inexistindo qualquer possibilidade de estabeler um consenso e/ou uma base objetiva confiável para fundamentar conceitos.

Entretanto, uso a palavra sempre no seu significado mais simples: "em relação a". Portanto, dizer que algo, como os valores, é relativo não significa dizer que é impossível fundamentar este algo ou que necessariamente discordemos dele. Significa que temos de perguntar quais os parâmetros que estão operando para defendermos, ou criticarmos, aquele algo.

Os valores morais são, portanto, relativos porque eles dependem dessa pergunta. Quando alguém diz que é "errado" ou "certo" fazer alguma coisa, é preciso perguntar: "errado ou certo em relação ao quê?". Só esse escrutínio permitirá, então, avançar a discussão e, se for o caso, chegarem os debatedores a um consenso.

O grande problema de quem não tem uma visão relativista do assunto é porque essa discussão não avança - e justamente porque ela não reconhece o lado relativo do valor moral. Ela julga que o valor é porque é, é absoluto, não cabe discussão e, mais ainda, foi legado por uma divindade ou ser superior, representa a "ordem natural", em vez de ser fruto de uma construção humana.

A verdade, porém, é que qualquer valor moral só faz sentido se o abordamos como construção humana. Para serem efetivos, valores morais requerem que haja reflexão (por que fazer?), racionalidade (faz sentido ou não faz?), decisão consciente (fazer ou não fazer?), avaliação de custos e benefícios (se eu fizer, ou não, o que acontece?), submissão voluntária (devo fazer ou não devo fazer) e ação (fazer ou não fazer). Isso pressupõe a existência e a posse de uma mente racional capaz de tomar decisões - e, por isso, não é possível sustentar o argumento da "ordem natural", já que, a rigor, não é possível indagar como outras espécies refletem e racionalizam sobre a questão em pauta.

Também o argumento "natural" se desfaz porque, muitas vezes, as decisões tomadas com base nos valores são patentemente antinaturais no sentido de que, na natureza, é possível avaliar que a "decisão" tomada pelas outras espécies seria diversa. Um exemplo claro, para mim, é o heroísmo.

Em boa parte das vezes, o heroísmo é patentemente antinatural. Em situações em que o, digamos, instinto e mesmo o bom senso recomendaria a autopreservação, o herói abdica de si mesmo em prol de outros em nome de um valor moral. O heroísmo também pode ser antirracional. Uma decisão razoável pode ser desprezada em nome de um ato heroico baseado em um valor moral tomado como verdade - e, no entanto, louvamos essas atitudes.

Retomemos, então, o início da argumentação. Os valores morais são relativos, posto que são construções humanas. É preciso indagar o ponto de referência e o parâmetro daquele valor. Ok. E por que o assunto pode ser menos complicado do que parece?

Porque, partindo da noção de pluralismo, e da natureza relativa dos valores morais, faz mais sentido deixar que cada indivíduo, e cada grupo onde esse indivíduo se insere, sigam seu valores morais de maneira a atender à sua consciência - sem que haja constrangimento ou imposição a terceiros, que não compartilham daqueles valores.

A ideia de que "minha liberdade vai até onde a sua vai", ou, como diria a frase do célebre filósofo, com as devidas ressalvas, "posso não concordar com nada do que você diz, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las", é bem útil aqui. A rigor, cada indivíduo, e cada grupo, pode seguir o valor moral que quiser - desde que segui-lo não pressuponha o cerceamento da liberdade de outrem em desfrutar do mesmo direito e não entre em conflito com o mínimo necessário para tornar essa situação de tolerância possível.

Como já expliquei em alguns textos meus, não é possível admitir uma postura intolerante usando como argumento a tolerância. É o caso em que a relativização mostra que existe, sim, uma base objetiva passível de ser fundada.

Não é possível, por exemplo, admitir o neonazismo em uma sociedade tolerante, ou usando como argumento a liberdade de expressão. Tolerância requer tolerância. A partir do momento que a ideologia nazista não contempla a con-vivência com determinados grupos - negros, judeus, homossexuais -, mas a destruição deles, o ideal de tolerância se esvai. A finalidade da tolerância é uma sociedade múltipla e plural, que, por sua vez, se caracteriza por ser... Plural.

Para isso, essa sociedade necessita que os diferentes indivíduos e grupos coexistam em sua diversidade, gerando a pluraridade que lhe é própria. Se uma ideologia requer a destruição de grupos e indivíduos, ela não pode ser tolerada, pois, no limite, destruirá a sociedade plural em si mesma. Em suma, sabotará tudo aquilo que a ideia de tolerância almeja. O neonazismo, portanto, não deve ser admitido. É um paradoxo.

Da mesma forma, a necessidade de manter como crimes certas práticas pode ser justificada nesse paradigma. Um determinado grupo pode ter como valor moral a morte de indivíduos - mas desde que a condição fundamental para a existência de pluraridade é a existência de vida (não existem indivíduos nem grupos em sociedade se eles estiverem mortos), a defesa da vida humana completa não pode ser abandonada, e o valor moral relativo passa a ser consensual e fundamental, pois o desrespeito a ele acarretaria a impossibilidade da convivência, da pluralidade e, portanto, da sociedade. Novamente, a tolerância seria sabotada em seu objetivo. É um paradoxo.

Onde está a complicação dos valores morais, então?

Está no fato de que inexiste nos grupos essa cultura da relativização. Em púlpitos de igrejas, em discursos de políticos conservadores, na mídia fundamentalista, a relativização é vista como negativa, como "inversão de valores" e esvaziamento moral.

O resultado é uma tentativa de IMPOR seus valores como salvadores, absolutos, e, sem levar em conta a tendência plural do ser humano, fazer deles os paradigmas de uma sociedade ideal.

Na verdade, a saída para a moralidade é exatamente a relativização. Respeitar o direito do outro de seguir os valores morais dele, desde que esse outro respeite o seu direito de seguir seus próprios valores - e que tais valores, seus ou dele, não levem a um dos paradoxos que sabotem a tolerância, e, consequentemente, a convivência e o aspecto plural da sociedade.

É preciso, portanto, desconfiar das receitas prontas e das tentativas, não raro truculentas, de homogeneizar a sociedade. O "Brasil do Senhor Jesus", que tanto apregoam certos setores evangélicos, não será o Brasil de Buda, de Maomé, o Brasil ateísta, o Brasil candomblecista, o Brasil gay ou o Brasil espírita.

Será, portanto, um Brasil excludente, intolerante, que será pleno apenas para um grupo particular de pessoas. Sacrificam-se a tolerância, a pluralidade e institui-se o paradoxo para minar o direito à existência de outros grupos.

Isso parece bom para você?

Para mim, não. E vale a pena abrir o olho, pois a maior parte, senão todas as igrejas cristãs não se regem pelo paradigma relativista em suas intervenções sociopolíticas, mas pelo paradigma absolutista - e muitos embarcam nessa viagem, sem se dar conta de que eles podem ser os próximos a ser jogados do trem.

maio 30, 2009

As mulheres que me perdoem...

... Mas beleza masculina é fundamental, hehehehe.

Ok, ok. Pode ser que o que eu vou dizer tenha a ver com o fato de eu ser gay, mas diferentemente da maioria das pessoas, eu considero que o homem é mais bonito que a mulher.

Eu digo "maioria" porque nós, humanos, estamos acostumados demais a relacionar as ideias de beleza, suavidade, vaidade e mesmo erotismo às curvas femininas – bem mais que aos músculos masculinos. Resultam daí afirmações como a clássica de que "a mulher é sempre mais bonita que o homem" e que outros complementam com aquela partícula que me dá arrepios: "diferentemente de outras espécies".

De fato, é sabido que, via de regra, em muitas outras espécies, os machos são mais exuberantes. O peru, o pavão, o leão, o cervo...

É claro que, nessa conta, que, no fundo, tem um componente ideológico de manter o dualismo e o maniqueísmo de gênero típico dos seres humanos ocidentais, não entram espécies como as hienas, em que as fêmeas são maiores, mais fortes, mais exuberantes e têm até um "pau" maior. Daí, vocês conseguem entender porque sempre tenho arrepios quando as pessoas tentam justificar comportamentos humanos recorrendo, sem grandes reflexões, à "natureza" - pois geralmente, a "natureza" é tão somente o que elas querem ver como natural.

Enfim, mas que seja. Admite-se, no senso comum, que, diferentemente de "outras espécies", no ser humano, as fêmeas são mais exuberantes. É disso que eu discordo, mas de uma forma inesperada que vocês verão ao longo do texto.

Na verdade, é possível até que a mulher se torne mais bela que o homem. Mas isso acontece não porque ela seja mais bela que o homem - mas porque nossa sociedade lhe permite, e lhe impõe, o uso de artifícios para isso.

Com efeito, o que nossa sociedade convencionou como ideal de beleza feminina comporta muita artificialidade. De cosméticos à moda, passando por práticas como a depilação, a mulher desejável, via de regra, na nossa sociedade, tem muito pouco a ver com o que ela é, mas com o que os outros, os homens héteros em especial, querem que ela seja.

Uma mulher natural, ou com mais elementos naturais, não é muito atrativa. Quem se interessaria por uma mulher com pernas peludas, com pelos nas axilas, sem maquiagem, com sobrancelha não-aparada e unhas não-feitas?

Alguns, certamente, mas muito poucos. Para a mulher ser bonita, ela precisa ser, em grande parte, artificial. Dúvida? Fiz um teste na comunidade de Ex-evangélicos do orkut. Mostrei um segmento que está sendo explorado na pornografia - por isso, atenção: as fotos e links a seguir são para maiores de 18 anos -, o das "unshaved girls", "hairy girls" ou "garotas naturais".

O que é isso? Meninas que abrem mão de parte da artificialidade atinente à beleza feminina socialmente considerada. Vejam os sites aqui e aqui e esta foto, que escaneei da revista AVN Europe de julho/2008, que me inspirou a escrever este post. Na comunidade, todas as reações foram de condenação e nojo, e tenho certeza de que serão a maior parte das reações de meus leitores.

E o curioso - e este é meu ponto - é que o homem pode ser bonito tendo tudo isso: pelos nas axilas, nas pernas, mesmo no rosto e em alguns casos nas costas - quiçá mantendo mesmo a região genital assim, mais selvagem... Olha o Hugh Jackman aí em cima, por exemplo, hehehe. Resulta, portanto, minha conclusão de que, em termos de mais naturalidade, ou, melhor, menos intervenção, é o homem, e não a mulher, o mais belo.

Há duas coisas a considerar aqui. Primeiro, um amigo meu diz que isso pode ser levado para outro lado: que, na verdade, a mulher é sim mais bonita, posto que toda a cosmética e moda explora um potencial, digamos, inato, que já está ali e que a leva a um "estado de arte" que o homem não é capaz de alcançar. Faz sentido, mas o grande problema é que não dá considerar o que seja mérito da mulher ou mérito da arte nesse imbróglio.

A outra é que os homens não são, afinal, tão naturais. Nós nos barbeamos, afinal. Muitos tiram os pelos das costas e do nariz, cortamos os cabelos como as mulheres e hoje muitos se depilam e mesmo se maquiam. É verdade. Afinal, os seres humanos são mestres na artificialidade e no não-natural. Mas meu ponto não é que os homens sejam naturais e as mulheres artificiais - mas que, para ser considerado bonito, o homem requer menos artificialidade, menor número de intervenções, que a mulher. Logo, na largada, ele sai com vantagem. A mulher até pode se tornar a mais bela no fim da corrida - mas, no início, é ele que é.

No entanto - e aqui vem o aspecto inesperado a que me referi há pouco -, essa minha posição não tem necessariamente a ver com o "fato" de que as mulheres sejam naturalmente desprovidas de mais beleza, como se Mamãe Natureza, a genética, a biologia ou algo que o valha simplesmente quisessem assim. Afinal, eu tenho arrepios a essas ideias biologizantes e "naturalistas", não foi o que falei?

O ponto crucial é social: por motivos ainda não esclarecidos, nós criamos um ideal de beleza feminina de tal forma artificial que as mulheres só podem corresponder a ele mediante um esforço hercúleo, e, diria eu, até mesmo sofrimentos desnecessários. Valorizamos demais um simulacro de mulher (Platão adoraria essa) em detrimento de uma mulher mais real, mais palpável e, por que não, um pouco mais natural.

O homem é mais bonito que a mulher porque a beleza masculina, socialmente considerada, é menos dependente de artificialidade, sofrimento, esforços hercúleos, e isso lhe dá vantagem naquela largada a que me referi. É mais fácil ser belo do que ser bela - mas a questão é que isso ocorre porque o nosso ideal de beleza masculina é menos distante do que o homem é, ou pode ser, por si mesmo. E também porque as dificuldades não são levadas em conta na hora de valorar a beleza.

Pode parecer que não - mas este texto não é um texto misógino...


... Mas que eu acho o homem mais bonito, acho! Hehehehe.

Por que a publicidade é tão sexista?

Creio que ninguém discorda que o Brasil tem uma das melhores publicidades, e publicitários, do mundo. O alto nível de nossas produções é comprovado pelos concursos internos e pelo bom desempenho em competições internacionais.

Alguns comerciais tornam-se mesmo inesquecíveis. Quem não se recorda do famoso "A minha voz continua a mesma, mas os meus cabelos... Quanta diferença"? Ou ainda do Negresco, que justifica tudo ou de um elefante nadando no oceano atrás de uma Coca-cola com a música "Só você me trouxe aqui... Que loucura esse desejo de te encontraaar?".

No entanto, é verdade que nem tudo são flores. A publicidade nacional também possui peças sofríveis, que pecam pelo excesso, pela falta, pela obviedade - e, às vezes, fazem a gente pensar: quem teve coragem de aprovar isso?

Uma das coisas que mais me deixam irritado é um inevitável sexismo em comerciais de produtos para o lar - e também alimentos e remédios, muitas vezes. Parece que, para os publicitários, homem não sabe lavar louça, não cozinha, não usa máquina de lavar nem sabão em pó, não troca cestinho de banheiro e, quando fica gripado, não tem a menor ideia de que remédio tomar. Em todos esses comerciais, é a sempre a mulher, e casada, que faz essas coisas.

Chega ao cúmulo de rejeitarem amostras. Uma vez no Metrô Consolação, estavam distribuindo amostras de sabão em pó e a modelo que distribuía me negou uma porque eu sou homem. Sorte dela que eu estava atrasado para o trabalho e não dei importância. Mas vontade de falar: "escuta, moça. Sou gay, não tenho mulher em casa, e eu lavo roupa, viu?", deu.

Ok. A indústria do marketing sempre tem centenas de pesquisas e, provavelmente, os comerciais são direcionados para o público que representa a maioria dos consumidores - mas e a criatividade, onde fica? E a ousadia? E falar também para os outros consumidores, mesmo que de vez em quando? Afinal, a Coca-cola não tem elefantes nadadores entre os consumidores de refrigerante. E a pomada Nebacetin, que representou tantas famílias diferentes e seus filhos, misturou maiorias e minorias em uma peça deliciosa - que mostra até um casal gay.

Ademais, mostrar outras realidades teria um interessante efeito pedagógico. É curioso que não apareçam mães solteiras e nem casais divorciados nesses comerciais, quando são situações cada vez mais frequentes no Brasil. O clichê papai, mamãe e filhos já não é realidade para boa parte da população.

Mas nããããão. O sabão em pó Omo é sempre coisa de mulher que têm filhos que mancham a roupa. O marido nunca sabe que Vick faz bem pra gripe. E lóóógico: só ela sabe cozinhar com caldo Knorr, limpa o banheiro e usa Pato Purific. Bom, verdade seja dita... Até que houve uma evolução: agora, eles também mostram a mulher trabalhando... E chegando em casa e fazendo tudo. Ou pelo menos lembrando de fazer. Afinal, é ela que tem de ligar para passar SBP na casa e dar outras providências. O homem nunca sabe...

A última investida do sexismo teve lugar na promoção "Ô, lá em casa", da Bombril, marca que sempre se caracterizou pela criatividade em sua bancada com o mesmo garoto-propaganda. Está claro que a promoção é para mulheres héteros. Afinal, quem mais usaria esponja de aço pra lavar panela?

Mas aí fico pensando nos milhares de pais solteiros, de viúvos, de gays, de lésbicas... E se um deles ganhar uma das casas? Ah, mas eles não escreveriam pra promoção? E por que não? Ter uma casa própria é um sonho quase universal no Brasil, e muita gente certamente quereria ganhá-la com um simples sorteio.

Bom, eu não tenho problemas em receber as chaves dos deliciosos Malvino Salvador, Rodrigo Hilbert (que eu escolheria rs) ou do Rrrrrrrraj, hehehe! Mas seria bom ter opções para outros públicos. Ou será que vão fazer que nem fizeram uma vez comigo quando eu estava na igreja?

Em uma festa de fim de ano, para a ceia, que era coletiva e tinha contribuição de todas as famílias da congregação, resolvi fazer um prato: mousse de pêssego. Na hora, decidiram fazer um "miniconcurso", com votação de todos os presentes. Tirei 3º lugar com meu mousse e ganhei um pano de prato - era só uma lembrancinha, afinal, pois o miniconcurso era mais uma brincadeira entre amigos. A decoração do mimo: bichinhos fofos e frutinhas decoradas. Quando viu minha cara, a organizadora, meio sem jeito, disse: "Desculpe, a gente não imaginava que um homem fosse tirar 3º lugar". Depois, reclamam do machismo...

agosto 16, 2009

Anatomia do ciúme

Relacionado ao valor que damos a nós mesmos, o ciúme pode ser um sentimento natural, de proteção do indivíduo e da personalidade, mas está longe de ser o tempero do amor.

por João Marinho

Tudo começou quando ele ligou para o namorado pela manhã. “Bom dia, meu amor, tudo bem?”. A resposta veio cortante, afiada: “quem é aquele Walter que escreveu no seu orkut, hein?!”. “Ei, calma! De que Walter você fala?”. “Aquele lá, do ‘adorei te conhecer’”, disse o bravo namorado, resmungando e possivelmente fazendo caretas do outro lado da linha. Bastaram alguns minutos para um bom dia apaixonado se converter em discussão.

Embora com outras cores, a maior parte de vocês, leitores, certamente já esteve em situação semelhante, no telefone, na internet ou ao vivo. Afinal, é muito raro que o amor venha desacompanhado daquilo que alguns dizem ser seu tempero, mas que, em excesso, também pode naufragar um relacionamento: o ciúme.

Pensar sobre o ciúme sempre foi um desafio para mim, pois não sou uma pessoa particularmente ciumenta. Meus amigos diziam, sobre um de meus ex-namorados, que eu “não gostava dele de verdade” por não ser ciumento – coisa que, evidentemente era falsa, como mesmo ele pode atestar.

No entanto, mesmo ele, certa vez, desabafou: “acho um absurdo você não ter ciúmes de mim”. Eu mal pude responder, pois, para mim, tudo se resumia na equação: se ele quiser, vai fazer; se não quiser, não vai – e se fizer, também não é isso que necessariamente vá acabar nossa relação. Fazer o quê? Transar com outra pessoa, claro, ou “trair”, diríamos no senso comum.

Isso nos leva para a primeira conclusão que extraio sobre o ciúme, de uma série de conclusões que este artigo, escrito a partir das reflexões pessoais de um simples jornalista, pretende jogar para a reflexão do leitor: a “traição” é a irmã do ciúme.

Escrevo “traição” assim, entre aspas, porque a definição é aberta. Cada pessoa tem ou pode ter uma noção particular do que é trair. É um assunto a ser conversado em outra oportunidade, mas resta um fato sobre ele: qualquer que seja o conceito que cada um tenha de traição, existe um medo visceral de enfrentá-la – e esse medo é combustível do ciúme.

O ciúme, portanto, não é o “tempero do amor”. Quando falamos de namoro, ou casamento, o verdadeiro combustível do ciúme não é o medo de “perder a pessoa porque se ama”, mas de ser traído por essa pessoa e enfrentar o turbilhão de acontecimentos a partir daí.

Mesmo que eventualmente se perca a pessoa e esse medo apareça, o sentimento que vem em primeiro lugar é o desconforto de poder ser traído em sua confiança, humilhado, de ser ferido/a em seu orgulho, de ser “feito de idiota” ou “passado para trás”. O ciúme tem mais a ver conosco do que com o outro.

Além disso, existe um tipo particular de ciúme que é o ciúme de quem não se ama. É mais raro, mas existe e se realiza no que eu e uma minha amiga certa vez definimos maldosamente como “capacho”.

Certamente, você já viu uma situação de “capachatez”, e, sem querer ser sexista, mas é o que me diz minha experiência cotidiana, me parece mais comum que a mulher submeta um homem a ela.

O “capacho” é aquele rapaz que endeusa uma mulher. Adora mesmo: só falta beijar o chão que ela pisa. Vive cercando a dita-cuja, mendigando migalhas de atenção, tentando conquistá-la e, às vezes, sendo vítima de pequenas humilhações que, para ele, passam (quase) despercebidas.

A mulher em questão usualmente não quer nada com o “capacho”. Ele até a incomoda com seu assédio – mas ela o mantém ali, subserviente, seja porque faz bem para o ego ter alguém que endeuse, seja porque ele faz pequeninas coisas que a ajudam, seja por simples divertimento.

No entanto, chega o dia em que o “capacho” conhece um outro alguém, como diz a música. Ele se apaixona, essa nova mulher lhe dá valor e atenção, e ele deixa sua deusa de lado – e, de repente, vemos essa deusa, que nada queria com ele, muitas vezes não gostava dele e até se incomodava com ele... Enciumada! Troque o sexo, porque existem muitos “capachos” héteros femininos, gays e lésbicos também, mas o fim da história costuma ser idêntico.

O ciúme também se manifesta em relação a coisas. Será que você gosta de ver sua camisa preferida enfeitando o irmão mais novo? Quem não fica incomodado quando pegam “emprestado” aquele livro preferido? Ou deixam empoeirar aquele sapato maravilhoso? Quem não tem uma situação semelhante para contar?

Tudo isso nos leva a um dado sobre o ciúme. Ele não é o tempero do amor, ele também existe em relação a quem não se ama e em relação a objetos – mas ele sempre aparece em relação a algo que se preze.

Mesmo no caso do “capacho”, a deusa, ou o deus, não quer saber do “capacho”, mas existe algo de que ela/ele gosta: toda aquela atenção e dedicação fazem bem. É agradável, é divertido. É algo que se preza.

De fato, não parece ser possível ter ciúmes de algo que nos faz mal, se temos plena consciência desse mal e/ou ele não é compensado por coisas agradáveis. Emprestando uma linguagem da análise do comportamento, o ciúme surge sempre em relação a algo que nos reforça positivamente.

No entanto, aqui é necessário fazer um ajuste. Afinal, não se tem ciúme do “capacho” porque ele vai se relacionar sexualmente com outra pessoa. Como o ciúme também acontece entre amigos, vale a mesma observação, e também não é possível ser “traído” por objetos, ou ainda bichos de estimação. Ainda não. Por isso, eu disse, lá no início, quanto à traição: “quando falamos de namoro ou casamento...”.

Então, qual o verdadeiro combustível do ciúme? A resposta está na intersecção entre o medo da traição do namorado, o desconforto de ter um amigo dando mais atenção a outra pessoa, ou o receio de ver suas coisas manchadas, rasgadas, malcuidadas.

Ciúme tem a ver com receio de sermos atingidos naquilo que prezamos e que se constitui parte de nossa autoimagem e, portanto, de nossa autoestima. Nós construímos nossa autoimagem e nossa autoestima a partir de nossos relacionamentos, da maneira que nos vestimos, das coisas que usamos, dos livros que lemos, das filosofias que adotamos.

Se você pensar bem, é no receio de ser atingido em alguma dessas coisas que você preza que o ciúme se manifesta como estratégia de defesa. E não é para menos: ser traído, ter um amigo que prefere outra companhia, usar um sapato rasgado ou camisa manchada, ver o autor que lhe ensinou a pensar em um livro com páginas a menos são coisas que depõem contra o valor que você dá a si mesmo.

No caso específico dos relacionamentos humanos, é como se o outro fizesse pouco caso de uma parte sua que você considera importante e depositou nele. Como já dito, o ciúme tem mais a ver conosco que com o outro: sua autoimagem, sua autoestima. Você sente ciúme porque se sente, ou tem medo de se sentir, desvalorizado. Não por medo de perder o outro.

Mas será que todo ciúme é igual? Certamente que não. O ciúme tem sempre um combustível, uma motivação fundamental, que acabamos de esclarecer – mas se manifesta de maneiras diversas em relação ao que denomino objeto primário e objeto secundário.

O objeto primário não tem mistério. É aquela pessoa ou objeto que nos traz o que prezamos: o foco do nosso ciúme. E o secundário? Ele se revela quando um terceiro, visto como ameaça, se aproxima.

É aquele ex-namorado do seu namorado, o primo que disputa a atenção da tia predileta, o irmão que usa suas roupas ou o garanhão, ou a gostosa, da balada – e ganha relevância quando uma situação desencadeadora se apresenta.

Com efeito, não é comum sentir ciúme todo o tempo: precisa haver uma situação concreta para ele aparecer a primeira vez pelo menos, uma situação em que se perceba a ameaça, mesmo que seja apenas uma olhadinha por parte da ou para a pessoa amada.

Posteriormente, as contingências de reforço (negativo) – apelando novamente para o linguajar comportamentalista – se encarregam de ver o objeto secundário sempre como ameaça, até o ponto em que a simples presença dele já é suficiente para causar mal-estar. É principalmente nessa fase em que o motivador fundamental do ciúme se mascara. Aí, parece que é o medo de perder a pessoa amada, mas não é bem assim.

Finalmente, o ciúme vai requerer uma punição. É preciso justiça. Alguém tem de pagar. É onde ocorre a explosão que abre este artigo no telefone, a cara fechada de quem engoliu seco a noite toda, o soco no rosto do garanhão abusado.

Motivação fundamental ligada à autoimagem e autoestima, objeto primário, objeto secundário, situação desencadeadora e exigência de punição. Eis a anatomia do ciúme. Você concorda com isso?

Fica aqui mais um item para reflexão. A quem punir? Animais também têm ciúme, o que, para mim, põe o ciúme no âmbito das coisas naturais – e, eu diria, até como estratégia de proteção do indivíduo e da personalidade. Mas, diferentemente deles, que tendem mais a punir o objeto secundário – o outro bichinho que disputa a atenção do dono, por exemplo –, os seres humanos frequentemente punem o objeto primário. Por que será?

outubro 31, 2009

Bíblia só para maiores

Estive pensando nesses dias, a partir de mensagens enviadas pelo jornalista Eduardo Peret na listaGLS, uma lista de discussão da qual faço parte e pensei: por que não começar uma campanha solicitando que a Bíblia seja classificada como um livro somente para maiores de 18 anos e seu acesso a menores de idade fosse restrito, como o é o álcool, o fumo, revistas pornôs, etc.?

Motivo?

O que ela contém!

- A Bíblia tem incesto: Ló e suas filhas, Judá e Tamar
- A Bíblia tem estupro: A mulher de Juízes (que foi tb esquartejada), Judá e Tamar (de novo).
- A Bíblia tem homicídio: Caim e Abel, Davi e o antigo esposo de Bate-Seba, hebreus matando seus irmãos após a crise do Bezerro de ouro, a morte de Estêvão, a morte de Absalão.
- A Bíblia tem tortura: a paixão de Cristo.
- A Bíblia tem guerras sangrentas: a tomada da Terra prometida (as mulheres grávidas tinham a barriga rasgada), a guerra contra os filisteus, a guerra civil de Israel contra a tribo de Benjamim, o Apocalipse.
- A Bíblia tem homofobia: a ameaça de estupro dos habitantes de Sodoma, as leis do Levítico.
- A Bíblia tem xenofobia: a destruição de Sodoma e Gomorra, a invasão de Canaã, egípcios x hebreus.
- A Bíblia tem machismo e misoginia: mulheres caladas na igreja, orientações de submissão feminina no casamento, a culpa de Eva por ter trazido o pecado (Paulo a usa).
- A Bíblia tem aprovação do trabalho escravo: o trato com os servos segundo o Novo Testamento.
- A Bíblia tem contato com demônios: o episódio dos porcos, a tentação de Jesus, Satanás em Jó.

Esse tipo de literatura é saudável para menores de 18 anos?!

Por muito menos, filmes, séries, revistas e afins recebem classificação indicativa só pra maiores!

Já enviei mensagens a comunidades da UNA (União Nacional dos Ateus), STR (Sociedade da Terra Redonda) no orkut e para ativistas gays via listas de discussão. Agora, estou divulgando no Twitter. Pode ser uma ideia interessante para ajudar a conter o avanço do fundamentalismo!

março 26, 2010

Casamento gay e revolução

Pode parecer estranho, mas casamento gay, por vezes, é um assunto polêmico até mesmo entre... Gays.

por João Marinho

Os motivos, claro, são diferentes daqueles homofóbicos: nada a ver com a história de “casamento é entre um homem e uma mulher” – argumento que nem encontra pleno apoio na história humana –, ou com a “impossibilidade” de gerar família, como se família fosse definida tão-somente por descendência e laços genéticos: a adoção está aí para provar que não é assim, bem como os casamentos de heterossexuais que não podem, ou optam por não ter filhos.

Subversão
O que polemiza o assunto entre os gays, principalmente, é a suposta perda do aspecto questionador da homossexualidade.

Por estar historicamente excluída do modelo “papai-mamãe-filhinhos” (a família nuclear), a homossexualidade guardaria um quê de subversiva. Ser gay é mostrar que outros modelos são possíveis e que o nuclear guarda boa dose de hipocrisia.

Os militantes gays brasileiros mais antigos, especialmente os influenciados pelo pensamento de esquerda, assim consideravam. Por isso, para muitos deles, o casamento era, e é, uma instituição falida.

Esse argumento ainda ecoa, e é uma das principais restrições gays ao casamento gay. Por que o movimento LGBT cerra fileiras na aprovação de leis que nos garantam acesso a uma instituição desacreditada e esgotada até para os héteros?

Decadência com elegância
Bom, penso que existe uma supervalorização inadequada da ideia de “decadência do casamento”. Não vejo as taxas de casamento diminuindo significativamente – e a instituição ainda é uma das mais interessantes ferramentas de consecução de direitos. Mesmo com o inegável crescimento do divórcio, não se pode negar que muitos divorciados casam-se novamente. A “decadência do casamento” parece mais um desejo do que uma realidade dada.

O que considero que pode estar em crise é, isso, sim, o modelo da família nuclear e talvez da monogamia estrita que embasa a noção ocidental de casamento – mas modelo nuclear, monogamia e casamento não são sinônimos. Exemplo são os casamentos poligâmicos que existiram e ainda existem em outras sociedades. O casamento é anterior à família nuclear.

Por isso, entendo que a tendência é que o modelo de família e relacionamento se flexione, mas que a instituição casamento permaneça. É o que vemos hoje no Brasil: famílias chefiadas por mulheres, por casais gays, com filhos adotados, com filhos de diferentes casamentos, formadas por não-filhos...

A família nuclear está longe de ser o único modelo – mas as pessoas continuam se casando, e, por vezes, o casamento até entra como ingrediente na formação de uma família diferenciada – como é, justamente, o caso do casamento gay.

Viver a vida
Desse ponto de vista, o casamento gay deixa de ser algo que nasceu falido para ser uma evolução dos direitos civis, humanos, sociais, afetivos e até reprodutivos.

Ademais, existe um dado inegável: por mais críticas que tenhamos ao casamento-instituição, a verdade é que, antes do século XX, os gays nunca haviam desfrutado desse direito. No Brasil, nunca desfrutaram.

Isso faz diferença. Uma coisa é não fazer algo porque não se quer. Outra é não fazer porque não se pode. Parece-me mais justo permitir a nós, gays, vivermos a experiência coletiva do casamento, passarmos por nossa própria “crise da instituição”, tecermos nossas próprias críticas – que não serão necessariamente as mesmas dos heterossexuais – e, quem sabe, mudar-lhe todo o significado.

O casamento gay é uma coisa muito nova. Não sabemos “no que vai dar”. Negar-nos isso por meio da “decadência do casamento” é que é uma crítica reacionária e conservadora, pois parte da noção de que o casamento nuclear hétero e “falido” é o único modelo possível – além de cometer o erro de tentar prever o futuro.


Texto publicado na revista Sex Boys nº 70.

abril 7, 2010

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abril 14, 2010

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janeiro 28, 2012

Moda masculina?

Sei que, na moda, as modelos mulheres é que dominam e têm destaque - mas nem sempre entendo o porquê. Vejam essa foto. Quem não percebe que o rapaz cabeludo é muito mais bonito?

Quem disse que, para ser bom, é preciso ter Deus no coração?

Angelina Jolie, ATEA

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