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Casamento gay e revolução

Pode parecer estranho, mas casamento gay, por vezes, é um assunto polêmico até mesmo entre... Gays.

por João Marinho

Os motivos, claro, são diferentes daqueles homofóbicos: nada a ver com a história de “casamento é entre um homem e uma mulher” – argumento que nem encontra pleno apoio na história humana –, ou com a “impossibilidade” de gerar família, como se família fosse definida tão-somente por descendência e laços genéticos: a adoção está aí para provar que não é assim, bem como os casamentos de heterossexuais que não podem, ou optam por não ter filhos.

Subversão
O que polemiza o assunto entre os gays, principalmente, é a suposta perda do aspecto questionador da homossexualidade.

Por estar historicamente excluída do modelo “papai-mamãe-filhinhos” (a família nuclear), a homossexualidade guardaria um quê de subversiva. Ser gay é mostrar que outros modelos são possíveis e que o nuclear guarda boa dose de hipocrisia.

Os militantes gays brasileiros mais antigos, especialmente os influenciados pelo pensamento de esquerda, assim consideravam. Por isso, para muitos deles, o casamento era, e é, uma instituição falida.

Esse argumento ainda ecoa, e é uma das principais restrições gays ao casamento gay. Por que o movimento LGBT cerra fileiras na aprovação de leis que nos garantam acesso a uma instituição desacreditada e esgotada até para os héteros?

Decadência com elegância
Bom, penso que existe uma supervalorização inadequada da ideia de “decadência do casamento”. Não vejo as taxas de casamento diminuindo significativamente – e a instituição ainda é uma das mais interessantes ferramentas de consecução de direitos. Mesmo com o inegável crescimento do divórcio, não se pode negar que muitos divorciados casam-se novamente. A “decadência do casamento” parece mais um desejo do que uma realidade dada.

O que considero que pode estar em crise é, isso, sim, o modelo da família nuclear e talvez da monogamia estrita que embasa a noção ocidental de casamento – mas modelo nuclear, monogamia e casamento não são sinônimos. Exemplo são os casamentos poligâmicos que existiram e ainda existem em outras sociedades. O casamento é anterior à família nuclear.

Por isso, entendo que a tendência é que o modelo de família e relacionamento se flexione, mas que a instituição casamento permaneça. É o que vemos hoje no Brasil: famílias chefiadas por mulheres, por casais gays, com filhos adotados, com filhos de diferentes casamentos, formadas por não-filhos...

A família nuclear está longe de ser o único modelo – mas as pessoas continuam se casando, e, por vezes, o casamento até entra como ingrediente na formação de uma família diferenciada – como é, justamente, o caso do casamento gay.

Viver a vida
Desse ponto de vista, o casamento gay deixa de ser algo que nasceu falido para ser uma evolução dos direitos civis, humanos, sociais, afetivos e até reprodutivos.

Ademais, existe um dado inegável: por mais críticas que tenhamos ao casamento-instituição, a verdade é que, antes do século XX, os gays nunca haviam desfrutado desse direito. No Brasil, nunca desfrutaram.

Isso faz diferença. Uma coisa é não fazer algo porque não se quer. Outra é não fazer porque não se pode. Parece-me mais justo permitir a nós, gays, vivermos a experiência coletiva do casamento, passarmos por nossa própria “crise da instituição”, tecermos nossas próprias críticas – que não serão necessariamente as mesmas dos heterossexuais – e, quem sabe, mudar-lhe todo o significado.

O casamento gay é uma coisa muito nova. Não sabemos “no que vai dar”. Negar-nos isso por meio da “decadência do casamento” é que é uma crítica reacionária e conservadora, pois parte da noção de que o casamento nuclear hétero e “falido” é o único modelo possível – além de cometer o erro de tentar prever o futuro.


Texto publicado na revista Sex Boys nº 70.

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