Recebi da ABGLT um clipping sobre a entrevista que a jornalista Juliana Linhares com a psicóloga evangélica Rozangela Justino. Segue para análise:
Parabéns à jornalista Juliana Linhares pela coerência das perguntas feitas na entrevista com Rozângela Alves Justino. Infelizmente não podemos parabenizar a entrevistada. A psicóloga fere frontalmente os princípios da ciência, a Organização Mundial de Saúde e o código de ética de sua profissão ao pretender mudar a orientação sexual dos homossexuais com base em suas convicções religiosas. Na mesma semana dessa entrevista, a Associação Americana de Psicologia (APA) declarou que "não há evidência alguma que apoie a afirmação de alguns profissionais de que a orientação sexual pode ser alterada por terapia". No exercício da profissão de psicólogo, deve haver o respeito à cidadania das pessoas LGBT, e não o incentivo ao preconceito, à discriminação e ao estigma. Nas palavras da juíza Emília Maria Velano, em sentença sobre a alegação de inconstitucionalidade feita por Rozângela quanto à Resolução 001/99 do Conselho Federal de Psicologia: "O Conselho Federal de Psicologia tem a obrigação de reprimir esse comportamento, principalmente no que concerne ao tratamento de homossexuais em consultórios de psicologia, como se fossem doentes sujeitos a transtornos".
Toni Reis
Presidente da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT)
Curitiba, PR
VEJA marcou um gol de placa entrevistando a psicóloga Rozângela Alves Justino (Amarelas, 12 de agosto). Essa entrevista entra para a história do bom jornalismo. A voz que faltava foi ouvida: a psicóloga punida pelo Conselho Federal de Psicologia por atender os homossexuais que a procuram. A jornalista Juliana Linhares foi incisiva nas perguntas que fez, e as respostas da psicóloga foram diretas e muito reveladoras. Parabéns pelo fino senso jornalístico da revista, ao perceber o anseio dos leitores por ouvir essa voz. Parabéns à psicóloga por arriscar sua carreira afirmando que continuará fazendo o que em consciência julga seu dever profissional fazer.
Luiz Roberto de Barros Santos
São Paulo, SP
A 43ª Assembleia-Geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), em 1990, retirou a homossexualidade da sua lista de doenças ou transtornos mentais, suprimindo-a do Código Internacional de Doenças (CID-10) a partir de 1993. A OMS diz explicitamente: "A orientação sexual por si não é vista como transtorno". Em consonância com essa perspectiva, o CFP, responsável pela regulamentação profissional dos psicólogos no Brasil, publicou em 1999 resolução que proíbe o tratamento da homossexualidade como doença e, portanto, a oferta de cura a algo que não é uma enfermidade. O conselho, dentro de suas atribuições, atua para que o desenvolvimento da psicologia no Brasil esteja alinhado com as necessidades de uma sociedade democrática, inclusiva e respeitadora da diversidade.
Humberto Verona
Presidente do Conselho Federal de Psicologia (CFP)
Brasília, DF
Parabéns, VEJA, por publicar uma entrevista tão oportuna com a psicóloga Rozângela Alves Justino. Sou médico pediatra há mais de quarenta anos e sempre considerei o homossexualismo um distúrbio do comportamento, e acho que, como tal, ele deve ser tratado. Quando uma mãe se queixa de que seu filho está com essa tendência, aconselho-a a procurar um psicólogo ou psiquiatra para que ela seja demovida. A "homofobia", tão falada hoje, nada mais é do que um sentimento natural daqueles que respeitam as leis de Deus e da natureza.
Silas Leite Prado
Médico pediatra
Belo Horizonte, MG
Apoio todas as afirmações da psicóloga Rozângela Alves Justino e seu trabalho na reabilitação de homossexuais. Até a 9ª Revisão da CID, realizada em 1975, esse comportamento era classificado como perversão sexual. Em 1985, foi classificado como distúrbio social, e na 10ª REV CID, de 1995, não foi mais considerado perversão. Antigamente, a homossexualidade era transgressão penal (Oscar Wilde foi preso por isso), depois passou a ser perversão sexual. Hoje é obrigação sexual. Atualmente, pervertidos somos nós, os heterossexuais (!).
Victor Leonardo da Silva Chaves
Médico
Rio de Janeiro, RJ
Mesmo sendo heterossexual, gostaria de expressar minha indignação no que diz respeito à entrevista que a psicóloga Rozângela Alves Justino concedeu a VEJA. Suas respostas corroboram a tese de que, de tanto ouvirem possíveis vulnerabilidades alheias, esses profissionais acabam entrando em parafuso e, em vez de ajudar, colocam mais "minhocas" na cabeça dos pacientes. Ponto para o Conselho Federal de Psicologia.
Ricardo Granatowicz
São Paulo, SP
Perplexo, triste, em choque. Foi assim que me senti ao ler a entrevista. Como, em plena era do Twitter, ainda é possível existir uma profissional que exerce sua profissão dessa forma? Não seria mais uma charlatã criando uma fórmula para encher seus cofres? Veio-me à cabeça o dia em que concedi entrevista a este mesmo veículo, e quando, com a mesma jornalista Juliana Linhares, decidi abrir o meu coração e falar da minha vida. Sofrimentos, preconceitos que um gay sofre em nossa sociedade desde criança. Pensei: o que será que mudou? Lembrei-me das centenas de cartas que recebi de mães de filhos gays dizendo que com a minha história passaram a enxergar o coração de seus filhos de outra forma. Vivemos em uma sociedade com formatos predeterminados desde o nosso nascimento. Mudar isso e fazer com que sejamos respeitados é muito difícil. Estamos vencendo barreiras e mostrando que somos iguais. Na condição de gay e descendente direto do povo judeu, senti-me desrespeitado em diversas áreas. Considero que essa senhora mereceria as punições mais severas possíveis por não saber fazer uso da palavra como psicóloga e por estar pregando um retrocesso em nossa sociedade.
Bruno Chateaubriand
Rio de Janeiro, RJ
O que dizer sobre esses comentários? Em primeiro lugar, fico extremamente feliz com a posição do CFP, com o conteúdo incisivo do comentário da ABGLT - o mesmo Toni Reis esteve enfrentando Justino num programa de rádio recentemente e lhe deu uma "lavada" - e com os demais comentários pró-diversidade.
Bruno Chateaubriand foi ao cerne, mostrando que o problema dos gays que não se aceitam ao ponto de irem buscar "ajuda" com pessoas como Justino não é serem gays - mas sofrerem o estigma social e cultural por isso, um estigma que pessoas da igreja de Justino fazem questão de manter.
Vale, no entanto, duas observações em relação aos comentários dos dois médicos. É curioso que o pronunciamento de dois tenha sido de apoio a Justino. Será que medicina continua tão conservadora? Lembro-me que uma amiga minha, lésbica, ao se consultar com um cardiologista, também dele ouviu uma "pregação" sobre o "distúrbio" ou "pecado".
Tenhamos cuidado com isso, pois, em nossa sociedade, o discurso proferido por um médico ou psicólogo tem poder - mas não significa que estejam certos.
O tal médico pediatra, por exemplo, comete um verdadeiro crime: quantas crianças não sofreram por esse tipo de atitude, em 40 anos de sua profissão? Mães iludidas que vão a psicólogos e psiquiatras pensando em "cura" de um distúrbio que não existe (repitam comigo: não existe) e crianças abusadas por pessoas que, por estudarem a mente humana, se arvoram na condição de semideuses, como se pudessem manipular impunemente o íntimo do ser de cada uma delas.
Cumpre lembrar que, no Brasil, o Conselho Federal de Medicina mesmo se antecipou à OMS e passou a desconsiderar a homossexualidade um transtorno ainda em 1985. Não foi ontem, nem hoje. Já faz mais de 20 anos! Se Silas Leite Prado, profissional há 40 anos, continua com esse tipo de abordagem, só significa uma coisa: no que tange à homossexualidade, ele deixou de se atualizar por 20 anos, o que é muito triste para um pediatra.
Já o comentário do também médico Victor Leonardo da Silva Chaves é vazio em si mesmo. Alguém precisa avisar o doutor - e, aliás, também ao Silas - que ser hétero (gostar do sexo oposto) não é sinônimo de ser homofóbico.
Gays não perseguem héteros e nem querem "convertê-los" a nada, como explicou muito bem o reverendo Márcio Retamero. O inverso, como mostra o caso de Justino e os comentários desses dois médicos, é que é verdadeiro.
Ser hétero não é ser homofóbico, e a convivência entre gays, héteros, bis, unis, múltis e qualquer espectro da sexualidade humana é possível e desejável. Os gays não lutam contra os héteros. E como poderíamos? A começar, nossos próprios pais são, via de regra, heterossexuais. Então, por que existem tantos héteros que caem nesse conto da carochinha?
Se há alguém que "precisa" (bem entre aspas, pois nossas demandas são pró-gay, e não "antifulano" ou "antibeltrano") se preocupar com o avanço do direito gay são os homofóbicos. E, como já disse, não são sinônimos. Seja um hétero consciente e abrace a diversidade.
Ah, e aproveite para anotar os nomes desses dois médicos e procurar evitar consultas com eles... Eu teria VERGONHA de ser um médico e me prestar o papel de contribuir para que a vida de parte da população brasileira se torne pior - e, vale dizer, menos saudável. Será que isso se harmoniza com o juramento de Hipócrates? E, em que escola de medicina estudaram para não saber que, na NATUREZA, comportamento gay existe e, portanto, não é contra ela?
Todos os comentários são oriundos da revista VEJA (fonte)







Comments (2)
Além da questão dde ser evangélica fundamentalista, Rozangela Justino me passa a sensação de ser também oportunista. Ela apegou-se à questão homossexual por que, dentro da religião dela tem todo um embasamento condenando, então ela usa desses "argumentos' por que não teria outros. Sua capacidade como psicóloga é limitada, ela não consegue e nem tem estrutura intelectual para estudar profundamente a psicologia humana e nem fazer trabalhos sérios. Então, mais uma vez, homossexuais são usados como bucha de canhão. De que outra forma uma mulher medíocre como ela conseguiria um espaço como as páginas amalelas da Veja? Nunca! então, se apegou nisso para fazer nome e carreira. O CRF não possui uma equipe para acompanhar a Rozangela e seus clientes e nem o seu caráter é policial. Então, quem garante que ela não irá continuar, com evangelicos e filhos de evangélicos, fazendo o absurdo que quiser com seus clientes? Nada garante. Ela já fez seu nome, tem um monte de gente que pensa como ela e a conta bancária dela deve ter crescido muito...
Sempre somos usados. Que nem acontece com os imigrantes. Basta ter qualquer falha nas medíocres equipes econômicas de qualquer governo, culpam-se os imigrantes, seriam eles que estariam roubando empregos dos nativos. Mas que emprego, que trablho os imigrantes fazem? Faxina? Lavar pratos? Nativos querem fazer issso?
enfim, fugi do assunto, só queria mostrar como minorias são utilizadas quando convém.
Beijo,
Ricardo
aguieiras2002@yahoo.com.br
Posted by Ricardo Rocha Aguieiras | agosto 19, 2009 2:01 AM
Posted on agosto 19, 2009 02:01
Uma discussão fascinante. Eu sinto que você deve escrever mais sobre este assunto, pode não ser um assunto tabu , mas geralmente os indivíduos não falam sobre tais temas.
Posted by A-cokE | janeiro 27, 2012 7:31 PM
Posted on janeiro 27, 2012 19:31