« Solano Portela e o genocídio homossexual | Main | Sobre o diploma de jornalista »

Violência pós-Parada Gay

São 14h39 quando começo a escrever este texto. Como todo dia de sábado, acordei mais tarde que o de costume e fiquei serpenteando no sofá tentando lembrar do que tinha para fazer hoje, além da academia – acumulei novas funções no serviço, que me fizeram chegar em casa depois das 23h durante a semana. Então, estou em falta com os exercícios físicos.

Decidi, porém, não ir malhar. Se sair agora, estarei de volta apenas às 17h, com pouco tempo para me arrumar e juntar energias para algo maior e mais valoroso que manter o "corpitcho": o protesto convocado às 19h pela Associação da Parada do Orgulho GLBT (APOGLBT) e outras entidades na Av. Dr. Vieira de Carvalho, centro de São Paulo, contra a violência homofóbica pós-Parada Gay. Violência que se concretizou num atentado a bomba com dezenas de feridos e na trágica morte de Marcelo Barros, 35, vítima de espancamento.

Há apenas alguns dias, questionei neste mesmo blog o artigo do "teólogo" Solano Portela, que gastou seu "precioso" tempo para tentar "comprovar" que as estatísticas de mortes produzidas por homofobia e divulgadas pelo professor Luiz Mott, do Grupo Gay da Bahia (GGB) são "viciadas" – chegando ao despeito de dizer que, no Brasil, ser gay pode ser "mais seguro" que ser hétero no que concerne aos homicídios.

Não é difícil encontrar meu artigo em resposta a essa imbecibilidade, que se encontra no post imediatamente anterior e no Gospel Gay, no qual realço que as mortes elencadas por Mott são ou resultado ou agravadas, no que diz respeito à barbárie, pela condição de LGBT da vítima.

Creio que a violência pós-Parada deixou isso mais claro que minhas palavras. Afinal, não me consta que se tenham jogado bombas na cabeça de pessoas porque elas eram héteros e celebravam seu dia de orgulho e nem que tenham espancado alguém até a morte por gostar do sexo oposto.

Nessa história, porém, devemos ter cuidado para separar o joio do trigo. Alguns conservadores, gays inclusive, creditaram a culpa do ocorrido à Parada, e já começou, maldisfarçado, um certo "movimento" encampado por jornalistas e figuras do poder público, de retirar a Parada da Paulista, lugar onde nasceu e tem relação umbilical. Lendo as notícias publicadas na imprensa, que, em larga medida, desprezou a maior politização da edição e o convívio pacífico e festivo para privilegiar a violência no entorno e o fato de terminar mais cedo, tem-se a impressão de que a Parada foi um fiasco, mal-organizada, com poucas pessoas e um verdadeiro campo de batalha – e não foi assim.

Eu estive lá, com meu namorado, como já faço há coisa de uns nove anos. Fui um dos que se decepcionaram por chegar à Paulista à tarde e ver que todos os trios já tinham passado – mas, que fique claro, isso não é falta de organização, mas um acerto de limite de horário fechado com a Prefeitura. Corri para R. da Consolação e pude aproveitar ainda o último trio, com boa música e com um discurso megapolitizado do presidente da Parada, Alexandre Peixe dos Santos, que gritava palavras de ordem contra a homofobia e, aplaudido pela massa, declarava: "Essa Parada é nossa! Não é deles!", referindo-se àqueles que, não sendo LGBTs e não tendo qualquer simpatia por nossa cultura e nossas demandas, lá comparecem apenas para exercitar o mal.

Também o "campo de batalha" não ocorreu. Algumas brigas, sim, infelizmente. Furtos, é claro – mas, no geral, o evento continua com baixíssimo número de ocorrências para seu gigantismo e relativamente seguro. Dúvida? Junte 3,1 milhões de membros de torcidas organizadas, vá ao carnaval de Salvador ou mesmo a megaeventos feitos "para a família", como a paulistana Virada Cultural, onde me ofereceram droga sem pudor em plena rua lotada das tais famílias, e confira. As torcidas, com muito menos gente, já incendeiam ônibus e carros – e vale destacar que é um ambiente puramente masculino heterossexual. Agora, é claro que isso não tira a gravidade dos fatos que abriram este post e que merecem ser denunciados, sim

A Parada encolheu, de 3,5 milhões de há dois anos para 3,1 milhões (outro "destaque" da imprensa, que privilegiou a queda em vez do número total) – mas querem saber? Eu achei bom. Espero que ela vá privilegiando a qualidade, mesmo que isso signifique mais diminuição nos números e concentração da presença dos LGBTs. Afinal, é nossa parada. Estejamos ali cobrando direitos, ou simplesmente festejando um dia de liberdade, temos esse direito – e o direito de estar ali sem ser morto ou vítima de atentados ao voltar para casa, e aqui voltamos ao caso da violência.

Existem dificuldades enormes em organizar uma manifestação que atingiu tamanho gigantismo: 3,1 milhões continua sendo um número pra lá de respeitável, um dos maiores que a cidade de São Paulo consegue reunir, senão ainda o maior. Certamente, alguns erros da direção, porque ninguém é perfeito, e também problemas no policiamento devido à quantidade de pessoas, mas a violência não é culpa de nenhum dos três fatores isoladamente ou majoritariamente, embora muitos policiais, e eu vi isso, estejam francamente despreparados para lidar com o público LGBT, notadamente por viverem numa instituição que, sem sombra de dúvida, é também homofóbica: a polícia militar.

Então, a quem deve ser creditada a culpa? Sem querer, já respondi ao falar da polícia. À HOMOFOBIA. Foi a homofobia, aliada ou não ao racismo, que, encarnada naquele grupo de homens, levou Marcelo à morte. E também foi a homofobia de um morador do prédio na Vieira que o levou a jogar uma bomba caseira em cima de outros seres humanos. Ou será que alguém acredita na cobertura da Folha, no delegado que investiga o caso ou no psiquiatra entrevistado pelo Jornal Nacional, que minimizaram o fato e tentaram dizer que o tal morador "só" se incomodou com o barulho – como se cidadãos íntegros, via de regra, guardassem pólvora em casa para qualquer "eventualidade" e aprendessem a construir bombas caseiras na escola apenas para, no caso de se incomodar com o vizinho de baixo, fazer uma rapidinho e atirar nele...

Leitores do Estadão e evangélicos de plantão já trataram de culpar os próprios gays, como se suicidas fôssemos porque, pelo visto, adoramos brincar de bomba na Vieira de Carvalho – que não, não é frequentada pelos mais abastados...

No entanto, esquecem-se, ou jogam sua costumeira cortina de fumaça, que não somente este atentado terrorista, mas também os espancamentos, os furtos, assaltos, latrocínios na Parada não são cometidos por aqueles que vão se divertir ou cobrar direitos. Mas por pessoas homofóbicas como eles próprios, leitores conservadores e evangélicos fundamentalistas, que dizem "amar o pecado mas desprezar o pecado", pensam que gays "merecem morrer", que "isso é falta de apanhar pra tomar vergonha", preferem "um filho morto a um filho veado" e outras barbaridades que pensam em segredo, quando não manifestam publicamente. Simplesmente, como bem observou Jean Wyllys em seu blog, alguns resolveram pôr em prática essas fantasias genocidas.

A Parada é nossa, mas a violência é deles – e está na hora de dizer que isso nós não aceitamos mais! Espero você hoje, paulistano e das cidades do entorno, às 19h, na Vieira de Carvalho. Abandone sua boate, sua academia, sua transa por algumas horas. Afinal, é de cidadania que estamos falando, e, sem ela, não sobram LGBTs vivos para que aproveitar essas outras coisas faça sentido – e aproveitemos para pressionar as ilustres excelências do Senado a aprovarem o PLC 122/06, que criminaliza a homofobia e que alguns acham "desnecessário"... O manifesto da mobilização de hoje segue abaixo.


Homofobia, basta! Justiça, já!

Esta manifestação realizada na Av. Dr. Vieira de Carvalho, hoje, dia 20 de junho de 2009, expressa a indignação do movimento, da comunidade de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT) e da população solidária contra as diversas manifestações de intolerância e de agressão física ocorridas, justamente, no dia da 13ª. Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, dia dedicado à luta por direitos para LGBT.

Estamos protestando contra os atos bárbaros, ocorridos durante e depois da Parada, envolvendo vários espancamentos e roubos. Um destes covardes ataques causou a morte de Marcelo Campos Barros, um cozinheiro de 35 anos, agredido brutalmente. Outro caso absurdo de agressão homofóbica foi a bomba arremessada de um prédio na Av. Dr. Vieira de Carvalho, que feriu cerca de 30 pessoas.

Basta de homofobia e assassinatos!

Exigimos providências dos órgãos públicos, na apuração imediata e rigorosa dos fatos, permitindo a prisão e julgamento dos culpados. Estamos cobrando um maior engajamento e empenho da Secretaria de Segurança Pública, sobretudo aumentando o policiamento no dia da Parada e orientando corretamente os agentes de segurança. Há vários relatos, inclusive casos documentados, de omissão do policiamento, que deixou de efetuar prisões em flagrantes de agressores.
Vivemos, hoje, num país marcado pela homofobia e numa sociedade que não tem pudores em expressar seu preconceito contra LGBT. Diante de fatos, não há argumentos. Quantas agressões ainda acontecerão para que o combate à homofobia seja uma prioridade do Estado brasileiro?

Muita violência e pouca denúncia

Em pesquisa realizada na Parada do Orgulho LGBT de São Paulo de 2006 pela APOGLBT e pela Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH) da Presidência da República, 59% relataram uma ou mais situações de agressão ao longo da vida. A maior parte dos casos de agressão relatados (60%) ocorreu em locais públicos.

Outro ponto a destacar nesse estudo é o percentual de participantes que declarou ter sido mal atendido em delegacias por policiais (18%) devido à sua orientação sexual ou identidade de gênero. Embora a incidência de agressões motivada pela sexualidade seja alta, apenas 11% dos agredidos chegaram a procurar a polícia.

Reivindicações: queremos justiça!

- Rápida e rigorosa investigação e punição dos autores dos crimes
- Aprovação do PLC 122/2006, que criminaliza a homofobia e tramita no Senado;
- Capacitação de policiais para atuar corretamente na segurança da Parada, no atendimento de vítimas de violência e na orientação adequada de denúncias.

Assinam este manifesto:
Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT)
Articulação Brasileira de Lésbicas (ABL)
Associação Brasileira de Gays (Abragay)
Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo (APOGLBT)
Coletivo de Feministas Lésbicas (CFL)
Central de Trabalhadores do Brasil (CTB)
Conectas
Fórum Paulista LGBT
Grupo Corsa
Grupo E-jovem
Grupo Identidade
Grupo de Pais de Homossexuais (GPH)
Instituto Edson Neris (IEN)
Justiça Global
MNDH/SP (Movimento Nacional de Direitos Humanos, regional São Paulo)
Projeto Purpurina
Ativistas independentes


TrackBack

TrackBack URL for this entry:
http://www.joaomarinho.jor.br/cgi-bin/mt/mt-tb.cgi/12

Comments (1)

You made some good points there. I did a search on the topic and found most people will agree with your blog.

Post a comment

(If you haven't left a comment here before, you may need to be approved by the site owner before your comment will appear. Until then, it won't appear on the entry. Thanks for waiting.)

About

This page contains a single entry from the blog posted on junho 20, 2009 3:42 PM.

The previous post in this blog was Solano Portela e o genocídio homossexual.

The next post in this blog is Sobre o diploma de jornalista.

Many more can be found on the main index page or by looking through the archives.

Powered by
Movable Type 3.33