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O texto abaixo é um artigo interessantíssimo do Reverendo Márcio Retamero, da Comunidade Betel, esclarecendo a respeito do PLC 122, que criminaliza a homofobia. Reproduzo abaixo e vale muito a pena ler!
A Liberdade de Expressão, os Evangélicos Fundamentalistas e o PCL 122
"Hoje, mais do que nunca, as pessoas têm certeza de possuir Liberdade absoluta; todavia, elas trouxeram sua liberdade até nós e a depositaram humildemente a nossos pés".
O Grande Inquisitor, de Dostoievski.
No dia 30 de maio de 2009, o jornal "O Estado de São Paulo", conhecido como "Estadão", trouxe a matéria intitulada "Sem alterações, Senado não aprova lei anti-homofobia". A avaliação contida na chamada é da Senadora Fátima Cleide (PT-RO), relatora do PLC 122 no Congresso Nacional. A razão da provável não aprovação do texto original do PCL 122 no Senado Federal é a posição contrária da chamada "bancada evangélica" ao PLC 122, que na visão deles, instauraria uma "ditadura gay" no país. Foram eles que apelidaram o PLC 122 de "Mordaça Gay", usando tal equivocado apelido para mobilizar a população brasileira contra o PLC 122.
Segundo os parlamentares evangélicos fundamentalistas, o PLC 122, criminaliza a opinião deles de que a homossexualidade é um pecado contra Deus, segundo as Escrituras Cristãs. A senadora Fátima Cleide, diz que já existe um acordo no sentido de retirar do texto o tema. Os parlamentares evangélicos estão contra o Art. 20 proposto pelo PCL 122 que altera a Lei 7.716/1999. Diz o Artigo 20: "Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero: Parágrafo 5º: o disposto neste artigo envolve a prática de qualquer tipo de ação violenta, constrangedora, intimidatória ou vexatória, de *ordem moral, ética, filosófica ou psicológica*". Mas este não é o único artigo que encontra resistência entre os evangélicos fundamentalistas; outros, que determinam a não-discriminação por troca de afeto entre iguais em local público, também é motivo de discordância.
É preciso que fique claro que o substitutivo que eles, os parlamentares evangélicos fundamentalistas proporão (liderados por Marcelo Crivella e Magno Malta), não alterará somente o artigo 20 acima transcrito, mas outros de igual modo. Sobrará muito pouco do texto original, caso o substitutivo deles vença a disputa.
Os evangélicos fundamentalistas e seus representantes no Congresso Nacional, dizem que o PLC 122 fere o que eles chamam de "liberdade de expressão", criando uma categoria "intocável" de cidadãos, segundo discurso do Pastor Silas Malafaia, influente pregador evangélico brasileiro, um dos maiores opositores ao avanço dos direitos civis LGBT, dentre outros, como Rev. Guilhermino Cunha (presbiteriano) e Nilson do Amaral Fanini (batista).
Cabe aqui a reflexão: o que é, numa democracia, liberdade de expressão? É o direito de dizer, de manifestar, nos diversos módulos de linguagem, o que quiser, sem respeitar o direito do outro? Numa democracia, vale dizer o que pensa, seja lá o que for que pensa, a respeito do cidadão alheio? Isso não se parece mais como pressuposto de uma ditadura, onde um só ou uma minoria tem o poder de regular a vida alheia?
Crer, como muitos, que uma democracia é uma sociedade livre, onde vale tudo, é um equívoco! Jamais existirá algo parecido: uma liberdade geral e total, onde é possível dizer e se comportar socialmente como convém a cada um. Democracia verdadeira se instala quando liberdades e não-liberdades fazem parte do chamado pacto social. "A Democracia exige que as "Liberdades civis" sejam protegidas por direitos legalmente definidos e por deveres a eles correspondentes, que acabam implicando **limitações da Liberdade**" (Felix E. Oppenheim – verbete "Liberdade", Dicionário de Política, BOBBIO e outros, UNB 2002, 12ª edição).
O discurso evangélico fundamentalista de que a aprovação do projeto original do PLC 122 fere a "liberdade de expressão" é um falso discurso, portanto! Liberdade de expressão, numa democracia, não é sair por ai dizendo o que tem na cabeça a respeito de tudo e todos; ao contrário, numa democracia de fato, a liberdade de expressão é seguida da responsabilidade social. Aliás, é limitada por ela! Liberdade de expressão não é passaporte seguro para destilarmos os preconceitos que temos e eles são muitos! Liberdade de expressão não permite que um cidadão humilhe outro, o constranja, o intimide, fira a consciência alheia, o exponha ao vexame ou incite, pelo discurso, preconceito, ódio, exclusão, discriminação ou qualquer coisa que se parece com isso.
E, se eles, os evangélicos fundamentalistas, dizem que não procedem assim em relação aos LGBTs estão mentindo e aí sim, pecando, segundo o que eles pregam, contra Deus. Pois o próprio Silas Malafaia, realiza este tipo de discurso, quando compara, em suas pregações, os LGBTs com os viciados em drogas, ladrões e profissionais do sexo. Não foi nem uma nem duas vezes que eu mesmo já ouvi na TV e em DVD, ele dizendo: "se o viciado em drogas deixa de ser viciado em drogas; se um ladrão deixa de roubar; se uma prostituta deixa de se prostituir; um homossexual pode deixar o homossexualismo (sic)". É este tipo de discurso que eles querem preservar. Isto é liberdade de expressão? Onde? Só aqui mesmo em nosso país, cuja legislação não avança no sentido de proteger a liberdade social e o direito civil da população LGBT!
Pregações como essa alimentam a homofobia; incitam ao preconceito e ao ódio, por mais piedosa que seja as declarações eivadas de cinismo desses pregadores que dizem: "amamos o pecador e abominamos o pecado", como se fosse possível separar ação de agente! Pregações como essa estão por trás de cada mão que assassina; de cada agressão verbal; de cada agressão física; de cada vexame; de cada suicídio; de cada pai e mãe que expulsam seus filhos e filhas de casa porque são gays.
Garantir o direito desses senhores continuarem a dizer coisas como diz Silas Malafaia e seus pares em relação aos homossexuais, fere o ideal democrático. Fere a minha liberdade de ser, uma vez que faz parte de mim ser homossexual. Fere a minha dignidade humana, que deve ser garantida pelas leis do meu país, já que o meu país declara-se um país democrático.
Eles chamam o PLC 122 de "mordaça gay" porque querem garantir o "direito" deles de amordaçar quem não segue suas opiniões. Quem tem usado mordaça e durante séculos neste país, somos nós, os LGBTs. Temos usado mordaça quando não podemos acionar criminalmente ou no âmbito do Direito Cível ou Trabalhista quando somos atacados, humilhados, vilipendiados, por discursos religiosos de pastores fundamentalistas como Silas Malafaia ou por opiniões como de Júlio Severo. Somos amordaçados quando o empregador inventa alguma coisa que vai implicar numa demissão sumária, quando na verdade ele está demitindo porque o cidadão é homossexual. Somos amordaçados quando através de textos, sites, programas de rádio e televisão cuja assistência conta com milhões de brasileiros e brasileiras, somos comparados com traficantes de drogas, viciados e ladrões. Somos amordaçados quando nos matam; quando tiramos nossas vidas num ato de desespero diante de tanta discriminação e preconceito. Somos amordaçados quando nos atacam fisicamente por sermos homossexuais ou quando aos berros nos xingam pelos lugares. Somos amordaçados, enfim, quando substitutivos ao PLC 122 é proposto com grande margem de sucesso de aprovação, por quem acha que a Constituição Brasileira deve seguir uma determinada leitura – jamais a única – das Escrituras Cristãs, que é exatamente o que os parlamentares fundamentalistas estão fazendo!
Se for aprovado o substitutivo proposto por Marcelo Crivella e Magno Malta, estaremos realizando o pesadelo fictício de Dostoievski, narrado na grande obra "Os Irmãos Karamazov" cujo trecho ilustra o início deste artigo: depositaremos aos pés dos grandes inquisidores evangélicos fundamentalistas, a nossa liberdade. Pesadelo maior que esse pra uma democracia é difícil de encontrar concorrente. A Democracia que se pretende verdadeira, não maquiada, pressupõe liberdade igual para todos os cidadãos; não mais liberdade para alguns. Atualmente, nós, o povo LGBT do Brasil, não fomos alcançados pelos raios do sol da liberdade que cantamos em nosso Hino Nacional. Estamos amordaçados há séculos!
Reverendo Márcio Retamero
Comunidade Betel do Rio de Janeiro
www.betelrj.com
No site Mídia Sem Máscara, uma das últimas pérolas, do "teólogo" Solano Portela, é questionar a ideia de que homossexuais sejam vítimas de enorme violência no Brasil. Usando de cortinas de fumaça e argumentos esdrúxulos, o teólogo tenta "comprovar" que o que existe, de fato, é uma "heterofobia" e uma "distorção" da realidade a partir do governo "petista", ferozmente atacado no citado site. Veja o artigo aqui.
Solano Portela tem razão?
Analisemos.
Bom, é claro que, como teólogo conservador que é, o Sr. Solano Portela é especialista em distorções. Afinal, que distorção maior pode haver em pregar uma religião que supostamente é baseada em paz e amor, mas se utilizar dos conhecimentos dessa mesma religião para justificar, ou minimizar a violência?
Portela é tão mestre no assunto que seu texto, postado em um site que se diz "sem máscaras", convenientemente oculta informações relevantes sobre as estatísticas que tanto tenta combater, mascarando a verdade.
A primeira delas é, logo de cara, o motivo de existirem tais estatísticas. Solano usa o argumento do Professor Luiz Mott sem considerar o fundamento dele para dizer que, no Brasil, ser homossexual é mais seguro e que heterossexuais têm 40x mais chances de sofrerem violência.
Efetivamente, como demonstra o "douto" teólogo, é possível chegar a essa conclusão matematicamente. Desde que se despreze o tipo de crime que o professor Luiz Mott utiliza para fazer sua base de cálculo, que é o crime homofóbico, e a fonte que o Mott utiliza em sua estatística.
Esclareçamos, portanto.
Em primeiro lugar, Mott contabiliza os crimes que são motivados ou agravados pelo preconceito de que homossexuais são vítimas.
Existe, portanto, um motivo para que o crime seja contabilizado na estatística: não é qualquer crime sofrido por gays ou lésbicas, ou, no que diz respeito ao que estamos discutindo, qualquer assassinato de que gays, lésbicas e afins são vítimas que entra nas estatísticas - mas aqueles assassinatos que são perpetrados pelos algozes tendo em vista a condição de homossexual da vítima.
Se um gay ou lésbica estiver, por exemplo, passeando pelo centro de São Paulo, e for vítima de um latrocínio comum, este crime não é contabilizado como crime homofóbico. Também não o é, se, por infortúnio, a pessoa morrer em um acidente de trânsito comum.
Coisa diversa é, no entanto, quando a pessoa é agredida e morta não porque o criminoso queria seu dinheiro: mas porque ela, sendo homem, estava de mãos dadas com o namorado, por exemplo.
Coisa diversa, conforme atesta a reportagem do Bom dia, Brasil, da Rede Globo, é ter uma bomba jogada de um edifício a fim de machucar participantes da Parada Gay. Muito provavelmente, pelo simples fato de serem gays e estarem naquela manifestação.
Outro crime que é contabilizado por Mott é aquele em que o fato de ser gay é um agravante para a violência. Lembremos do exemplo do latrocínio comum. O crime entrará na estatística se, ao perceber que a vítima é um LGBT, o criminoso, por isso, usar de violência descomedida.
A questão da motivação, portanto, é essencial para entender a estatística promulgada por Luiz Mott. Quando se diz que, a cada três dias, morre um homossexual no Brasil, não estamos dizendo que, a cada três dias, morre um homossexual porque se envolveu num acidente de trânsito, porque foi vítima de latrocínio comum, porque se envolveu numa briga de bar, discutiu no trânsito ou coisa semelhante.
Quando se diz que, a cada três dias, morre um homossexual no Brasil, dizemos que, a cada três dias, um homossexual morre no Brasil tão somente pelo fato de ser homossexual. E por nenhum outro motivo relevante.
Corrija-me, portanto, Solano Portela, ou qualquer outro. Mas, até onde sei, inexistem, em nosso País, casos de heterossexuais mortos pelas mãos de terceiros por causa de sua heterossexualidade.
Quantos héteros são agredidos, ou mortos, diariamente no País, porque beijaram suas esposas, por exemplo, e alguém na rua "não gostou porque homem com mulher é contra as Leis de Deus"?
Pois é disto, e de nada mais, que estamos falando.
Até eu já passei por uma situação de estresse no metrô de São Paulo, porque estava de mãos dadas com meu namorado e me arrisquei a dar um selinho nele. Um homem enfurecido levantou-se da cadeira, nervoso e esbravejando porque estávamos "desrespeitando sua esposa" - que, na verdade, ficou muito mais envergonhada com a atitude dele, a ponto de sair do trem escondendo seu rosto.
Pergunto ao Sr. Portela: quantas vezes ele passou por situação semelhante ao dar as mãos ou encostar os lábios em sua esposa? Ou, ainda, por carregar a Bíblia embaixo do braço?
Pois é disto, e de nada mais, que estamos falando.
Tanto é assim que a estatística de Mott utiliza-se da análise do modus operandi para se sustentar. Como foi a história, quem matou, por quê, a pessoa xingou, humilhou a vítima, em que termos, se mutilou de forma a punir a sexualidade do outro, etc.
Não tenham dúvidas de que, se no meu caso particular, a coisa houvesse progredido até resultar em agressão e morte, seria um crime homofóbico e provavelmente entraria nas estatísticas do professor Luiz Mott. Afinal, qual foi a motivação? Um beijo gay.
Portanto, se esvai a tentativa do "teólogo" de ocultar a verdade do assassinato de gays no País tendo como motivação a homofobia. Bem como a tentativa matemática, mas irregular, de "provar" que é mais seguro ser gay do que ser hétero no País.
Seria interessante ver o Sr. Portela procurar comprovar, na prática, seu argumento. Por exemplo, arriscando-se a sair com outro homem, como se gay fosse, e procurando ver realmente se estará "mais seguro" e "escapará mais" da morte, como quer "provar".
O segundo ponto que interessa destacar é que a estatística de Luiz Mott é baseada em artigos da imprensa. Erroneamente, o Sr. Portela parece considerar que ela representa a totalidade de crimes cometidos contra gays. Morre um homossexual a cada três dias no Brasil considerando-se somente os crimes que saem na mídia com motivação homofóbica.
Quantos outros ocorrem, mas não chamam a atenção dos jornalistas? Se, apenas com o que a mídia divulga - que, por definição, é sempre uma pequena parte -, esta já é a estatística, imagine se pudessem ser considerados TODOS os crimes que não chegam até ela e têm motivação homofóbica...
Sim, vivemos um genocídio homossexual no Brasil tomando como referência esse parâmetro. Qualquer que seja a conta matemática, é evidente que, na realidade, morrem MAIS de um homossexual a cada três dias por ser homossexual.
Aliás, diferentemente do que o autor distorce em seu texto no primeiro item, o movimento gay não rejeita a ideia de inclinação biológica ou genética da homossexualidade. A defesa do direito de ser quem é a que o teólogo se refere, é bem mais simples que isso: que independentemente da "causa" da homossexualidade, o fato de ser gay não deve ser motivador de discriminação - e deve-se respeitar as pessoas em sua individualidade, diferença e diversidade.
A título de exemplo, lembremos que, como teólogo cristão, o Sr. Portela OPTOU por essa religião. Mas duvido muito que concorde com a ideia de que deve ser punido, agredido, morto ou discriminado por isso - mesmo que seja muito mais simples mudar de religião do que de orientação sexual (afinal, sequer existem bases objetivas para sustentar "reorientações" sexuais).
Repito, ao Sr. Portela, a pergunta: quantos heterossexuais são mortos, em notícias da mídia ou fora dela, por conta de sua heterossexualidade?
Por fim, o Sr. Portela se apropria de definições deslocadas (ou distorcidas) dos estudos da sexualidade, ao falar que "ativos também são homossexuais". Sugere o autor que os ativos "não são contabilizados", quando inexiste, na mídia ou nas estatísticas de Luiz Mott, qualquer restrição nesse sentido.
Simplesmente ocorre de que, por questões de machismo que o autor certamente conhece (mas oculta), a passividade é um item agravante e ultrajante para a maneira como é construída a imagem do "macho brasileiro": razão pela qual é mais comum um "ativo" matar frente à possibilidade de "se igualar" permitindo-se a penetração; do que um passivo frente à possibilidade de também penetrar.
Mas o primeiro ponto merece ainda alguma análise. Será que os "ativos" são também homossexuais?
Algumas vezes, sim. Outras vezes, não.
Com efeito, é sabido que o que define a orientação sexual é o desejo erótico, a atração físico-sexual tomada em sua acepção ampla no interior da vida do indivíduo - Portela, se não sabe (mas ocultou), saberia se acompanhasse os recentes desenvolvimentos nos estudos da sexualidade e áreas afins. Especialmente, no Brasil, experimentações, mesmo que repetidas, em outros espectros da sexualidade não constituem prova de orientação sexual per se.
No Brasil, é comum que homens se relacionem com homens como ativos e se definam, se sintam e vivam como heterossexuais. E, de fato, parte deles realmente o é, posto que o desejo é orientado às mulheres, e as transas com homens não se relacionam à atração que rege suas vidas.
O inverso também é verdadeiro. "Ex-gays", de igrejas cristãs, da religião do Sr. Portela, não são "ex-" porque se relacionam sexualmente com mulheres. São GAYS que se relacionam sexualmente com mulheres, mesmo que sua orientação sexual indique o oposto: uma situação que, motivada por questões religiosas, fatalmente é geradora de ansiedade, crises e, quando não, traumas. Existe até nome para isso: orientação sexual egodistônica. Fica aqui, portanto, o alerta: ao contrário do que pregam pessoas como Rozangela Justino e Julio Severo, o "ex-gay" não está "curado" ou "reorientado" de nada - mas, muito provavelmente, inserindo em sua vida uma egodistonia que pode levá-lo, aí sim, à patologia.
Retomemos, portanto, o argumento do Sr. Portela, que tenta, no fundo, culpar os gays pela violência de que são vítimas e talvez negar a existência de criminosos héteros e homofóbicos: não, não são todos os ativos que são homossexuais. Segundo, não me consta que todos os crimes homofóbicos tenham referência à relação sexual dos envolvidos. Terceiro, quem disse que a homofobia não afeta também alguns homens e mulheres, que procuram reprimir a homossexualidade veementemente e se tornam agressivos quando esta lhes aparece?
Além disso, e isso é sabido, um criminoso pode perfeitamente seduzir a vítima com vistas ao mal. Mulheres assassinadas por serial killers, crianças vítimas de pedofilia, e vítimas de violência doméstica, golpes do tipo "Boa Noite, Cinderela" e outros podem ser estudados nesse sentido. Nem sempre o intuito do autor é o sexo, ou ainda, o sexo enquanto relação, participa dos elementos.
Finalizando este artigo, fica claro do que se trata o texto do Sr. Solano Portela: simples embuste. Tentativa infeliz de minimizar a violência de que uma minoria social é vítima por sua condição de minoria.
Uma atitude no mínimo questionável de quem professa uma religião que já foi minoritária e já sofreu igual ou pior perseguição em sua história, dentro dos mesmíssimos parâmetros. Ou que, hoje, diz pregar o amor.
Esse tipo de amor?! Dispenso.
E depois o autor ainda quer sugerir que não precisamos do PLC 122... Mas o que esperar de um site fundado por Olavo de Carvalho?
Sr. Portela, onde o senhor guarda sua máscara?
São 14h39 quando começo a escrever este texto. Como todo dia de sábado, acordei mais tarde que o de costume e fiquei serpenteando no sofá tentando lembrar do que tinha para fazer hoje, além da academia – acumulei novas funções no serviço, que me fizeram chegar em casa depois das 23h durante a semana. Então, estou em falta com os exercícios físicos.
Decidi, porém, não ir malhar. Se sair agora, estarei de volta apenas às 17h, com pouco tempo para me arrumar e juntar energias para algo maior e mais valoroso que manter o "corpitcho": o protesto convocado às 19h pela Associação da Parada do Orgulho GLBT (APOGLBT) e outras entidades na Av. Dr. Vieira de Carvalho, centro de São Paulo, contra a violência homofóbica pós-Parada Gay. Violência que se concretizou num atentado a bomba com dezenas de feridos e na trágica morte de Marcelo Barros, 35, vítima de espancamento.
Há apenas alguns dias, questionei neste mesmo blog o artigo do "teólogo" Solano Portela, que gastou seu "precioso" tempo para tentar "comprovar" que as estatísticas de mortes produzidas por homofobia e divulgadas pelo professor Luiz Mott, do Grupo Gay da Bahia (GGB) são "viciadas" – chegando ao despeito de dizer que, no Brasil, ser gay pode ser "mais seguro" que ser hétero no que concerne aos homicídios.
Não é difícil encontrar meu artigo em resposta a essa imbecibilidade, que se encontra no post imediatamente anterior e no Gospel Gay, no qual realço que as mortes elencadas por Mott são ou resultado ou agravadas, no que diz respeito à barbárie, pela condição de LGBT da vítima.
Creio que a violência pós-Parada deixou isso mais claro que minhas palavras. Afinal, não me consta que se tenham jogado bombas na cabeça de pessoas porque elas eram héteros e celebravam seu dia de orgulho e nem que tenham espancado alguém até a morte por gostar do sexo oposto.
Nessa história, porém, devemos ter cuidado para separar o joio do trigo. Alguns conservadores, gays inclusive, creditaram a culpa do ocorrido à Parada, e já começou, maldisfarçado, um certo "movimento" encampado por jornalistas e figuras do poder público, de retirar a Parada da Paulista, lugar onde nasceu e tem relação umbilical. Lendo as notícias publicadas na imprensa, que, em larga medida, desprezou a maior politização da edição e o convívio pacífico e festivo para privilegiar a violência no entorno e o fato de terminar mais cedo, tem-se a impressão de que a Parada foi um fiasco, mal-organizada, com poucas pessoas e um verdadeiro campo de batalha – e não foi assim.
Eu estive lá, com meu namorado, como já faço há coisa de uns nove anos. Fui um dos que se decepcionaram por chegar à Paulista à tarde e ver que todos os trios já tinham passado – mas, que fique claro, isso não é falta de organização, mas um acerto de limite de horário fechado com a Prefeitura. Corri para R. da Consolação e pude aproveitar ainda o último trio, com boa música e com um discurso megapolitizado do presidente da Parada, Alexandre Peixe dos Santos, que gritava palavras de ordem contra a homofobia e, aplaudido pela massa, declarava: "Essa Parada é nossa! Não é deles!", referindo-se àqueles que, não sendo LGBTs e não tendo qualquer simpatia por nossa cultura e nossas demandas, lá comparecem apenas para exercitar o mal.
Também o "campo de batalha" não ocorreu. Algumas brigas, sim, infelizmente. Furtos, é claro – mas, no geral, o evento continua com baixíssimo número de ocorrências para seu gigantismo e relativamente seguro. Dúvida? Junte 3,1 milhões de membros de torcidas organizadas, vá ao carnaval de Salvador ou mesmo a megaeventos feitos "para a família", como a paulistana Virada Cultural, onde me ofereceram droga sem pudor em plena rua lotada das tais famílias, e confira. As torcidas, com muito menos gente, já incendeiam ônibus e carros – e vale destacar que é um ambiente puramente masculino heterossexual. Agora, é claro que isso não tira a gravidade dos fatos que abriram este post e que merecem ser denunciados, sim
A Parada encolheu, de 3,5 milhões de há dois anos para 3,1 milhões (outro "destaque" da imprensa, que privilegiou a queda em vez do número total) – mas querem saber? Eu achei bom. Espero que ela vá privilegiando a qualidade, mesmo que isso signifique mais diminuição nos números e concentração da presença dos LGBTs. Afinal, é nossa parada. Estejamos ali cobrando direitos, ou simplesmente festejando um dia de liberdade, temos esse direito – e o direito de estar ali sem ser morto ou vítima de atentados ao voltar para casa, e aqui voltamos ao caso da violência.
Existem dificuldades enormes em organizar uma manifestação que atingiu tamanho gigantismo: 3,1 milhões continua sendo um número pra lá de respeitável, um dos maiores que a cidade de São Paulo consegue reunir, senão ainda o maior. Certamente, alguns erros da direção, porque ninguém é perfeito, e também problemas no policiamento devido à quantidade de pessoas, mas a violência não é culpa de nenhum dos três fatores isoladamente ou majoritariamente, embora muitos policiais, e eu vi isso, estejam francamente despreparados para lidar com o público LGBT, notadamente por viverem numa instituição que, sem sombra de dúvida, é também homofóbica: a polícia militar.
Então, a quem deve ser creditada a culpa? Sem querer, já respondi ao falar da polícia. À HOMOFOBIA. Foi a homofobia, aliada ou não ao racismo, que, encarnada naquele grupo de homens, levou Marcelo à morte. E também foi a homofobia de um morador do prédio na Vieira que o levou a jogar uma bomba caseira em cima de outros seres humanos. Ou será que alguém acredita na cobertura da Folha, no delegado que investiga o caso ou no psiquiatra entrevistado pelo Jornal Nacional, que minimizaram o fato e tentaram dizer que o tal morador "só" se incomodou com o barulho – como se cidadãos íntegros, via de regra, guardassem pólvora em casa para qualquer "eventualidade" e aprendessem a construir bombas caseiras na escola apenas para, no caso de se incomodar com o vizinho de baixo, fazer uma rapidinho e atirar nele...
Leitores do Estadão e evangélicos de plantão já trataram de culpar os próprios gays, como se suicidas fôssemos porque, pelo visto, adoramos brincar de bomba na Vieira de Carvalho – que não, não é frequentada pelos mais abastados...
No entanto, esquecem-se, ou jogam sua costumeira cortina de fumaça, que não somente este atentado terrorista, mas também os espancamentos, os furtos, assaltos, latrocínios na Parada não são cometidos por aqueles que vão se divertir ou cobrar direitos. Mas por pessoas homofóbicas como eles próprios, leitores conservadores e evangélicos fundamentalistas, que dizem "amar o pecado mas desprezar o pecado", pensam que gays "merecem morrer", que "isso é falta de apanhar pra tomar vergonha", preferem "um filho morto a um filho veado" e outras barbaridades que pensam em segredo, quando não manifestam publicamente. Simplesmente, como bem observou Jean Wyllys em seu blog, alguns resolveram pôr em prática essas fantasias genocidas.
A Parada é nossa, mas a violência é deles – e está na hora de dizer que isso nós não aceitamos mais! Espero você hoje, paulistano e das cidades do entorno, às 19h, na Vieira de Carvalho. Abandone sua boate, sua academia, sua transa por algumas horas. Afinal, é de cidadania que estamos falando, e, sem ela, não sobram LGBTs vivos para que aproveitar essas outras coisas faça sentido – e aproveitemos para pressionar as ilustres excelências do Senado a aprovarem o PLC 122/06, que criminaliza a homofobia e que alguns acham "desnecessário"... O manifesto da mobilização de hoje segue abaixo.
Esta manifestação realizada na Av. Dr. Vieira de Carvalho, hoje, dia 20 de junho de 2009, expressa a indignação do movimento, da comunidade de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT) e da população solidária contra as diversas manifestações de intolerância e de agressão física ocorridas, justamente, no dia da 13ª. Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, dia dedicado à luta por direitos para LGBT.
Estamos protestando contra os atos bárbaros, ocorridos durante e depois da Parada, envolvendo vários espancamentos e roubos. Um destes covardes ataques causou a morte de Marcelo Campos Barros, um cozinheiro de 35 anos, agredido brutalmente. Outro caso absurdo de agressão homofóbica foi a bomba arremessada de um prédio na Av. Dr. Vieira de Carvalho, que feriu cerca de 30 pessoas.
Basta de homofobia e assassinatos!
Exigimos providências dos órgãos públicos, na apuração imediata e rigorosa dos fatos, permitindo a prisão e julgamento dos culpados. Estamos cobrando um maior engajamento e empenho da Secretaria de Segurança Pública, sobretudo aumentando o policiamento no dia da Parada e orientando corretamente os agentes de segurança. Há vários relatos, inclusive casos documentados, de omissão do policiamento, que deixou de efetuar prisões em flagrantes de agressores.
Vivemos, hoje, num país marcado pela homofobia e numa sociedade que não tem pudores em expressar seu preconceito contra LGBT. Diante de fatos, não há argumentos. Quantas agressões ainda acontecerão para que o combate à homofobia seja uma prioridade do Estado brasileiro?
Muita violência e pouca denúncia
Em pesquisa realizada na Parada do Orgulho LGBT de São Paulo de 2006 pela APOGLBT e pela Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH) da Presidência da República, 59% relataram uma ou mais situações de agressão ao longo da vida. A maior parte dos casos de agressão relatados (60%) ocorreu em locais públicos.
Outro ponto a destacar nesse estudo é o percentual de participantes que declarou ter sido mal atendido em delegacias por policiais (18%) devido à sua orientação sexual ou identidade de gênero. Embora a incidência de agressões motivada pela sexualidade seja alta, apenas 11% dos agredidos chegaram a procurar a polícia.
Reivindicações: queremos justiça!
- Rápida e rigorosa investigação e punição dos autores dos crimes
- Aprovação do PLC 122/2006, que criminaliza a homofobia e tramita no Senado;
- Capacitação de policiais para atuar corretamente na segurança da Parada, no atendimento de vítimas de violência e na orientação adequada de denúncias.
Assinam este manifesto:
Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT)
Articulação Brasileira de Lésbicas (ABL)
Associação Brasileira de Gays (Abragay)
Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo (APOGLBT)
Coletivo de Feministas Lésbicas (CFL)
Central de Trabalhadores do Brasil (CTB)
Conectas
Fórum Paulista LGBT
Grupo Corsa
Grupo E-jovem
Grupo Identidade
Grupo de Pais de Homossexuais (GPH)
Instituto Edson Neris (IEN)
Justiça Global
MNDH/SP (Movimento Nacional de Direitos Humanos, regional São Paulo)
Projeto Purpurina
Ativistas independentes
Faz dias que estou guardando algumas coisas para postar, mas não acho tempo desde que me tornei responsável pela atualização de reportagens e artigos nos sites Sex Boys, Sexsites, Transites e Elassex, além de acumular meu trabalho como editor de 20 revistas, hehehe.
No entanto, já que falamos de jornalismo, não podia deixar de comentar a decisão "histórica" do Supremo Tribunal Federal que, praticamente, deixou minha profissão desregulamentada ao derrubar a exigência do diploma para o exercício do jornalismo. Estou entalado todos esses dias com essa história, especialmente com amigos jornalistas meus que, deslumbrados, acreditam que a derrubada da lei foi um "avanço". Não foi.
Até o momento, nenhum dos argumentos apresentados conseguiu me convencer desse "avanço", ou da justiça de derrubar a exigência. Gabriel Navarro, amigo meu que amo de paixão, escreveu em seu blog a respeito da baixa qualificação de certos cursos superiores de jornalismo e até mesmo do desconforto de disputar vagas com pessoas tão precariamente qualificadas.
O problema do post do meu amigo é que ele vai na direção da extinção da exigência do diploma, em um caminho que soa algo niilista para mim: já que os cursos superiores estão tão ruins, então não é preciso mesmo manter a exigência. Em outras palavras, em vez de manter a exigência e buscar elevar o nível dos cursos, então vamos desqualificar de vez e disputar vagas com as pessoas com curso superior mal-qualificadas - e também com as pessoas formadas apenas no ensino médio, no ensino fundamental, cozinheiros (fazendo referência à comparação esdrúxula do ministro Gilmar Mendes, com todo o respeito a essa profissão) e afins. Para que melhorar a formação profissional? Vamos piorar de vez!
No entanto, o argumento mais comum, e creio que o mais distorcido, coloca nas costas dos jornalistas a culpa pela falta de "liberdade de expressão" da população. Um argumento que fez a cabeça do Ministério Público Federal, que tomou a atitude vergonhosa de defender as entidades patronais, como o Sertesp (Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão no Estado de São Paulo), e dos ministros do Supremo. E distorcido porque confunde liberdade de expressão, liberdade de imprensa e exercício profissional.
Até mesmo o mais prosaico dos brasileiros sabe que o conceito de liberdade de expressão é amplo - e não restrito aos veículos de comunicação de massa. Você exercita sua liberdade de expressão em um pronunciamento, em um púlpito, numa conversa na rua, pelo SMS do celular, na internet e em seu blog, no caderninho de anotações de uma exposição. É verdade que a liberdade de expressão também se estende aos veículos. No entanto, quem disse que o exercício do jornalismo a impede ou lhe propõe empecilhos?
Esta semana, comprei a revista Época, em que um editorial escrito por um colega de profissão certamente deslumbrado - e diplomado - festejava o fim da obrigatoriedade do diploma evocando a tese de que a exigência obstruía a liberdade de expressão de outras categorias. Bastava virar algumas páginas para encontrar colunas assinadas por cientistas políticos e economistas que, evidentemente, não começaram a ser editadas esta semana - uma delas, inclusive, dizia ter periodicidade quinzenal.
Médicos, cientistas políticos ou não, economistas, críticos literários, padres, cineastas, empresários... Todas essas categorias têm, e sempre tiveram, acesso aos jornais, revistas, canais de rádio e de tevê e afins. Têm colunas, comandam seções, veiculam programas, fazem comentários. Onde ou o que está obstruindo sua liberdade de expressão? Ou ainda a liberdade de imprensa, uma vez que tudo chega ao grande público sem maiores percalços? O exercício da liberdade de expressão de cada categoria é, inclusive, garantido nas entrevistas e reportagens, quando estas se constituem fontes. Onde estaria o obstáculo a que aludiu o procurador-geral da República, Antônio Fernando de Souza?
Como bem esclarece o artigo de Beth Costa, da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), se todas elas não falam ao mesmo tempo, é por exigência do mercado e do projeto editorial. Duas coisas que, fatalmente, são mais influenciadas e/ou decididas pelos patrões, que fizeram de tudo para derrubar a exigência do diploma de jornalismo, que pelos repórteres-funcionários que eles contratam. Por que, para ampliar a liberdade de expressão, não se procura romper, por exemplo, o oligopólio familiar que se abate sobre a imprensa nacional, dominada por famílias como Frias, Mesquita, Marinho e Civita? Na verdade, ao fazer uma reportagem, em seu exercício profissional, o jornalista muitas vezes precisa limitar sua liberdade pessoal de expressão em favor de uma cobertura equilibrada e não-sensacionalista dos fatos que apura.
E aqui, entra também uma crítica à Fenaj. Com efeito, a entidade, que lutou pela obrigatoriedade do diploma, ao meu ver falhou em caracterizar o que seria o objeto de trabalho de jornalista: precisamente, a reportagem. Artigos, editoriais, comentários, críticas, resenhas... Tudo isso pode ser escrito, narrado, televisionado por pessoas de diferentes formações - mas uma reportagem precisa ser feita por pessoas que têm uma formação adequada, submetidas a um código de ética e com capacidade atestada e verificável.
Advogados redigem peças jurídicas. Jornalistas, reportagens - e ambas as formações necessitam de conhecimento adequado para tal. Algo muito distante de uma profissão "desprovida de qualificações técnicas" e "puramente uma atividade intelectual", como caracterizou Tais Gasparian, representante da Sertesp, na Folha. Seria muito interessante propor à dita "senhôra" realizar uma reportagem de alta complexidade para verificar o quão "puramente intelectual" e "desprovida de qualificação técnica" pode ser.
Com efeito, chega a ser um absurdo que pessoas com formação em Direito que, pelo visto, absolutamente desconhecem o dia-a-dia de uma redação, tenham decidido pela derrubada da exigência do diploma sem que se tenha pensado sequer em uma consulta pública, em chamar os jornalistas para conversar e ouvir a categoria. Por que não derrubar a exigência de diploma em Direito para ser um juiz, ou um advogado ou um delegado? Para prestar exame à OAB (Ordem dos Advogados do Brasil)? Afinal, na prática, basta entender de leis, filosofia do direito e ordenamento jurídico e ter "capacidade redacional", como me enviou um advogado, em artigo defendendo o fim da exigência do diploma de jornalista - e tais formações em Direito não são dadas apenas nas faculdades que levam esse rótulo. Derrubar a exigência do diploma em Direito seria, portanto, uma atitude em favor da liberdade de expressão do cidadão, da liberdade de se autorrepresentar e, de quebra, uma democratização do acesso ao Judiciário. Olha que maravilha! No entanto, ninguém ventila isso.
O maior problema da queda da exigência do diploma, no entanto, não é a queda em si. Com efeito, há de se reconhecer que existem pessoas por aí com talento, muito talento, algumas com talento nato, para o exercício do jornalismo e que não cursaram faculdade de jornalismo. De igual forma, nossos jornalistas históricos que possuem mais de 35, 40, 45 anos de carreira não são, ou eram, formados em jornalismo. E também é verdade que a exigência do diploma não é universal, inexistindo em muitos países. O maior problema é a desregulamentação.
Uma alternativa à não-obrigatoriedade do diploma de jornalismo seria, por exemplo, um curso de especialização para pessoas que tivessem uma outra formação e viessem de outras áreas. No entanto, como não se travou um debate com a categoria ou sociedade, e tudo se limitou à ação movida pelas entidades patronais com apoio do MPF, isso não foi ventilado. Outra alternativa seria ter um exame de ordem no estilo que a OAB aplica aos candidatos à advocacia.
No entanto, quando foi proposta, com apoio do presidente Lula, a fundação de um Conselho Federal de Jornalismo, novamente os patrões, novamente com o apoio de meus colegas deslumbrados de profissão, e novamente apelando pro batido e distorcido argumento do obstáculo à "liberdade de expressão", boicotaram a ideia. O projeto, de fato, tinha pontos que mereciam ajustes - mas, em vez de apresentar propostas para melhorá-lo, simplesmente o enterraram. Em outras palavras, tal como fizeram com a Lei de Imprensa, cuja queda total deixou um vácuo na regulamentação do direito de resposta, e agora com a queda da exigência do diploma, jogaram fora o bebê com a água suja.
Resultado: para ser jornalista, hoje, no Brasil, não é necessário diploma, não é necessário exame, não é necessário curso, não é necessário nada. Praticamente, é a desregulamentação da profissão - e isso numa época em que até as/os prostitutas/os lutam para regulamentar a sua e quando a informação é alçada à categoria de bem fundamental.
Na verdade, diferentemente da profissão de cozinheiro - que requer que se saiba cozinhar, e bem, antes de mais nada -, não é necessário nem mesmo saber fazer uma reportagem, quiçá escrever, se o contratante assim o quiser. E aos contratantes, ou seja, aos patrões, é dado todo o poder, de fazer seleções com quem quiserem e, efetivamente, praticarem dumping salarial. Ou alguém realmente acredita que eles contratarão sociólogos pós-doutorados para preencher suas vagas de jornalismo e aumentar o nível salarial?
Espero que meus colegas jornalistas que festejaram a queda da exigência do diploma - que, inegavelmente, teve um processo civilizatório e moralizador em nossa profissão - ainda tenham o que festejar quando estiverem disputando vagas com um sem-número de pessoas de formações diferentes, ou sem formação alguma, em troca de alguns punhados de reais no fim do mês. Isso, claro, se a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) do senador Antônio Carlos Valadares (PSB-CE), que tem meu apoio desde já, não passar no Senado.
Não sei quantos de vocês estão acompanhando o reality show da Record, A Fazenda.
Não posso dizer que virei um fã, mas dou uma espiada sempre que posso, geralmente na companhia do meu neném, a quem faz pouco tempo confessei estar amando [:D] e com quem geralmente tenho passado as noites de domingo.
O que A Fazenda tem que outros realities não têm? Absolutamente nada, hehehe. O programa, apresentado por Britto Júnior, lembra mais uma mistura de A Casa dos Artistas (pelas "celebridades" presentes) e Big Brother Brasil (pelas câmeras, closes, "intrigas", etc.) com um toque campestre.
No entanto, serve como opção de entretenimento para aquelas horas em que você não tem nada mais importante para fazer e quer gastar alguns minutos com futilidades. Além disso, é uma "diliça" ver Dado Dolabella, Miro Moreira, o ex-capa da G, Théo Becker (até antes de sair na semana passada e mesmo surtando, hehehe), e Jonathan Haagensen andando pra lá e pra cá, muitas vezes com o peito nu, entre vacas e cavalos. Sem falar que é quase impossível não ficar sabendo absolutamente nada do que acontece ali.
Fiquei sabendo, por exemplo, dos amassos entre Babi Xavier e Miro Moreira e que o moço foi o que os norte-americanos chamariam de an ass com a moça: deu detalhes sobre o que se passava debaixo do edredom e ainda fez observações "interessantes" sobre, por exemplo, a saúde capilar das madeixas da apresentadora, que comparou a palha de aço.
Esse comportamento descortês despertou a ira da redatora-chefe da revista Tititi (ok, não me perguntem como essa literatura chega às minhas mãos, hihihi), Márcia Piovesan - e, pelo visto, de alguns leitores -, que escreveu um editorial raivoso sobre o rapaz e insistia em chamá-lo de "bonitinho (inho, diga-se de passagem)", além de dizer que ninguém sabia "muito bem quem é e a que veio".
Bom, Miro Moreira é visto como companheiro inseparável de Reynaldo Gianecchini nas baladas da vida, e todos sabem quais boatos ecoam a respeito de Giane - e, por consequência, de Miro, que poderia ser "mais que um amigo".
Além disso, se tivessem pesquisado um pouco mais, Márcia Piovesan e a própria Babi - que, em um programa da Record, ficou se perguntando "quem é Miro?", como se o homem fosse um ilustre desconhecido -, saberiam que pode-se não saber a que ele veio, mas é fácil saber quem ele é: Miro Moreira é um modelo internacional de sucesso, que já posou para grifes de renome e é conhecido pelo corpo escultural que exige muito pouco uso do Photoshop, para não dizer nenhum.
De fato, ele não é propriamente famoso no Brasil - mas isso é muito mais por culpa do Brasil que do modelo. De toda forma, por aqui, ficou mais conhecido por posar para o site The Boy (tenho fotos do ensaio, lalalá rsrsr) e para a revista gay DOM, que lhe dedicava a manchete ... E Deus criou Miro Moreira.
Acredito que não dê para defender o comportamento dele nesse imbróglio todo com a Babi. Mesmo que ele "não goste da fruta" - e Théo Becker foi, a meu ver, quase homofóbico ao insinuar isso ao sair -, mesmo assim, foi grosseiro. Agora, que dá para saber porque Babi ficou com ele, mesmo correndo o risco por não conhecê-lo muito bem, isso dá. É só olhar as fotos abaixo:
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Todo hétero que conheço tenta relacionar os T-Lovers, homens que curtem sair com travestis, com os gays. Aliás, até alguns gays fazem. Sempre paira aquela pergunta no ar: 'homem que sai com travesti não é gay?".
A resposta, até óbvia, é que não.
Com efeito, não existe uma "classificação", digamos assim, própria para esses rapazes que preferem uma mulher com "algo mais", muito menos para as mulheres que têm essa preferência (sim, elas existem e você pode ler sobre isso neste LINK PARA MAIOR DE 18 ANOS aqui).
No entanto, é fato que tais homens estão muito mais próximos dos homens héteros que de nós, gays. Afinal, as pessoas não se resumem à sua genitália, e, por mais que a existência de um pênis participe do charme de uma travesti, tais homens procuram nelas índices terminantemente femininos.
Duvida? Pois vamos testar minha teoria com Carol de Castro. Quantos de vocês, homens héteros, não a achariam "gostosa" e não se sentiriam atraídos por ela se não soubessem que ela é uma travesti (ou, ainda agora, não se sentem)? E olha que a foto abaixo está sem tratamento. Carol, que posou para a revista Transites, é assim mesmo.

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