Valores morais são uma questão complicada, mas penso que mais porque as pessoas complicam do que porque sejam complicados em si mesmos.
Em uma sociedade plural como a nossa, não soa extravagante dizer que os valores são relativos - e, aqui, cabe um certo cuidado com a palavra, porque existe um mal-entendimento de que, ao dizermos que algo é "relativo", isso significa que, de pronto, discordamos de sua existência e que "pode tudo", inexistindo qualquer possibilidade de estabeler um consenso e/ou uma base objetiva confiável para fundamentar conceitos.
Entretanto, uso a palavra sempre no seu significado mais simples: "em relação a". Portanto, dizer que algo, como os valores, é relativo não significa dizer que é impossível fundamentar este algo ou que necessariamente discordemos dele. Significa que temos de perguntar quais os parâmetros que estão operando para defendermos, ou criticarmos, aquele algo.
Os valores morais são, portanto, relativos porque eles dependem dessa pergunta. Quando alguém diz que é "errado" ou "certo" fazer alguma coisa, é preciso perguntar: "errado ou certo em relação ao quê?". Só esse escrutínio permitirá, então, avançar a discussão e, se for o caso, chegarem os debatedores a um consenso.
O grande problema de quem não tem uma visão relativista do assunto é porque essa discussão não avança - e justamente porque ela não reconhece o lado relativo do valor moral. Ela julga que o valor é porque é, é absoluto, não cabe discussão e, mais ainda, foi legado por uma divindade ou ser superior, representa a "ordem natural", em vez de ser fruto de uma construção humana.
A verdade, porém, é que qualquer valor moral só faz sentido se o abordamos como construção humana. Para serem efetivos, valores morais requerem que haja reflexão (por que fazer?), racionalidade (faz sentido ou não faz?), decisão consciente (fazer ou não fazer?), avaliação de custos e benefícios (se eu fizer, ou não, o que acontece?), submissão voluntária (devo fazer ou não devo fazer) e ação (fazer ou não fazer). Isso pressupõe a existência e a posse de uma mente racional capaz de tomar decisões - e, por isso, não é possível sustentar o argumento da "ordem natural", já que, a rigor, não é possível indagar como outras espécies refletem e racionalizam sobre a questão em pauta.
Também o argumento "natural" se desfaz porque, muitas vezes, as decisões tomadas com base nos valores são patentemente antinaturais no sentido de que, na natureza, é possível avaliar que a "decisão" tomada pelas outras espécies seria diversa. Um exemplo claro, para mim, é o heroísmo.
Em boa parte das vezes, o heroísmo é patentemente antinatural. Em situações em que o, digamos, instinto e mesmo o bom senso recomendaria a autopreservação, o herói abdica de si mesmo em prol de outros em nome de um valor moral. O heroísmo também pode ser antirracional. Uma decisão razoável pode ser desprezada em nome de um ato heroico baseado em um valor moral tomado como verdade - e, no entanto, louvamos essas atitudes.
Retomemos, então, o início da argumentação. Os valores morais são relativos, posto que são construções humanas. É preciso indagar o ponto de referência e o parâmetro daquele valor. Ok. E por que o assunto pode ser menos complicado do que parece?
Porque, partindo da noção de pluralismo, e da natureza relativa dos valores morais, faz mais sentido deixar que cada indivíduo, e cada grupo onde esse indivíduo se insere, sigam seu valores morais de maneira a atender à sua consciência - sem que haja constrangimento ou imposição a terceiros, que não compartilham daqueles valores.
A ideia de que "minha liberdade vai até onde a sua vai", ou, como diria a frase do célebre filósofo, com as devidas ressalvas, "posso não concordar com nada do que você diz, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las", é bem útil aqui. A rigor, cada indivíduo, e cada grupo, pode seguir o valor moral que quiser - desde que segui-lo não pressuponha o cerceamento da liberdade de outrem em desfrutar do mesmo direito e não entre em conflito com o mínimo necessário para tornar essa situação de tolerância possível.
Como já expliquei em alguns textos meus, não é possível admitir uma postura intolerante usando como argumento a tolerância. É o caso em que a relativização mostra que existe, sim, uma base objetiva passível de ser fundada.
Não é possível, por exemplo, admitir o neonazismo em uma sociedade tolerante, ou usando como argumento a liberdade de expressão. Tolerância requer tolerância. A partir do momento que a ideologia nazista não contempla a con-vivência com determinados grupos - negros, judeus, homossexuais -, mas a destruição deles, o ideal de tolerância se esvai. A finalidade da tolerância é uma sociedade múltipla e plural, que, por sua vez, se caracteriza por ser... Plural.
Para isso, essa sociedade necessita que os diferentes indivíduos e grupos coexistam em sua diversidade, gerando a pluraridade que lhe é própria. Se uma ideologia requer a destruição de grupos e indivíduos, ela não pode ser tolerada, pois, no limite, destruirá a sociedade plural em si mesma. Em suma, sabotará tudo aquilo que a ideia de tolerância almeja. O neonazismo, portanto, não deve ser admitido. É um paradoxo.
Da mesma forma, a necessidade de manter como crimes certas práticas pode ser justificada nesse paradigma. Um determinado grupo pode ter como valor moral a morte de indivíduos - mas desde que a condição fundamental para a existência de pluraridade é a existência de vida (não existem indivíduos nem grupos em sociedade se eles estiverem mortos), a defesa da vida humana completa não pode ser abandonada, e o valor moral relativo passa a ser consensual e fundamental, pois o desrespeito a ele acarretaria a impossibilidade da convivência, da pluralidade e, portanto, da sociedade. Novamente, a tolerância seria sabotada em seu objetivo. É um paradoxo.
Onde está a complicação dos valores morais, então?
Está no fato de que inexiste nos grupos essa cultura da relativização. Em púlpitos de igrejas, em discursos de políticos conservadores, na mídia fundamentalista, a relativização é vista como negativa, como "inversão de valores" e esvaziamento moral.
O resultado é uma tentativa de IMPOR seus valores como salvadores, absolutos, e, sem levar em conta a tendência plural do ser humano, fazer deles os paradigmas de uma sociedade ideal.
Na verdade, a saída para a moralidade é exatamente a relativização. Respeitar o direito do outro de seguir os valores morais dele, desde que esse outro respeite o seu direito de seguir seus próprios valores - e que tais valores, seus ou dele, não levem a um dos paradoxos que sabotem a tolerância, e, consequentemente, a convivência e o aspecto plural da sociedade.
É preciso, portanto, desconfiar das receitas prontas e das tentativas, não raro truculentas, de homogeneizar a sociedade. O "Brasil do Senhor Jesus", que tanto apregoam certos setores evangélicos, não será o Brasil de Buda, de Maomé, o Brasil ateísta, o Brasil candomblecista, o Brasil gay ou o Brasil espírita.
Será, portanto, um Brasil excludente, intolerante, que será pleno apenas para um grupo particular de pessoas. Sacrificam-se a tolerância, a pluralidade e institui-se o paradoxo para minar o direito à existência de outros grupos.
Isso parece bom para você?
Para mim, não. E vale a pena abrir o olho, pois a maior parte, senão todas as igrejas cristãs não se regem pelo paradigma relativista em suas intervenções sociopolíticas, mas pelo paradigma absolutista - e muitos embarcam nessa viagem, sem se dar conta de que eles podem ser os próximos a ser jogados do trem.







Comments (2)
João, que maravilha!
ah, como você é inteligente e que bom ler um texto tão perfeito. Você diz tudo e não deixa sobras.
A princípio, parece complicado. Já que temos a tendência de enxergar o mundo apenas com os nossos olhos e nos sentimos únicos.
Eu nunca gostei de nada impositivo, exceto se a imposição que rem me fazer me convença, seja muito bem explicada. Senão, minha tendência primeira é rejeitar.
Agora vou ler outros textos do seu blog e comentando. só lia os editoriais da Sexy que você fazia e algumas matérias boas na A CAPA. Mas , de longe, esse de hoje está perfeito. Me ensina a ser mais tolerante.
Beijos e obrigado!
Ricardo
aguieiras2002@yahoo.com.br
Posted by Ricardo Rocha Aguieiras | maio 27, 2009 8:54 PM
Posted on maio 27, 2009 20:54
Great post. Just found it on AOL. Thanks for the useful information. Keep up the nice work :)
Posted by Ezequiel Heidel | junho 19, 2010 7:21 PM
Posted on junho 19, 2010 19:21