Creio que ninguém discorda que o Brasil tem uma das melhores publicidades, e publicitários, do mundo. O alto nível de nossas produções é comprovado pelos concursos internos e pelo bom desempenho em competições internacionais.
Alguns comerciais tornam-se mesmo inesquecíveis. Quem não se recorda do famoso "A minha voz continua a mesma, mas os meus cabelos... Quanta diferença"? Ou ainda do Negresco, que justifica tudo ou de um elefante nadando no oceano atrás de uma Coca-cola com a música "Só você me trouxe aqui... Que loucura esse desejo de te encontraaar?".
No entanto, é verdade que nem tudo são flores. A publicidade nacional também possui peças sofríveis, que pecam pelo excesso, pela falta, pela obviedade - e, às vezes, fazem a gente pensar: quem teve coragem de aprovar isso?
Uma das coisas que mais me deixam irritado é um inevitável sexismo em comerciais de produtos para o lar - e também alimentos e remédios, muitas vezes. Parece que, para os publicitários, homem não sabe lavar louça, não cozinha, não usa máquina de lavar nem sabão em pó, não troca cestinho de banheiro e, quando fica gripado, não tem a menor ideia de que remédio tomar. Em todos esses comerciais, é a sempre a mulher, e casada, que faz essas coisas.
Chega ao cúmulo de rejeitarem amostras. Uma vez no Metrô Consolação, estavam distribuindo amostras de sabão em pó e a modelo que distribuía me negou uma porque eu sou homem. Sorte dela que eu estava atrasado para o trabalho e não dei importância. Mas vontade de falar: "escuta, moça. Sou gay, não tenho mulher em casa, e eu lavo roupa, viu?", deu.
Ok. A indústria do marketing sempre tem centenas de pesquisas e, provavelmente, os comerciais são direcionados para o público que representa a maioria dos consumidores - mas e a criatividade, onde fica? E a ousadia? E falar também para os outros consumidores, mesmo que de vez em quando? Afinal, a Coca-cola não tem elefantes nadadores entre os consumidores de refrigerante. E a pomada Nebacetin, que representou tantas famílias diferentes e seus filhos, misturou maiorias e minorias em uma peça deliciosa - que mostra até um casal gay.
Ademais, mostrar outras realidades teria um interessante efeito pedagógico. É curioso que não apareçam mães solteiras e nem casais divorciados nesses comerciais, quando são situações cada vez mais frequentes no Brasil. O clichê papai, mamãe e filhos já não é realidade para boa parte da população.
Mas nããããão. O sabão em pó Omo é sempre coisa de mulher que têm filhos que mancham a roupa. O marido nunca sabe que Vick faz bem pra gripe. E lóóógico: só ela sabe cozinhar com caldo Knorr, limpa o banheiro e usa Pato Purific. Bom, verdade seja dita... Até que houve uma evolução: agora, eles também mostram a mulher trabalhando... E chegando em casa e fazendo tudo. Ou pelo menos lembrando de fazer. Afinal, é ela que tem de ligar para passar SBP na casa e dar outras providências. O homem nunca sabe...
A última investida do sexismo teve lugar na promoção "Ô, lá em casa", da Bombril, marca que sempre se caracterizou pela criatividade em sua bancada com o mesmo garoto-propaganda. Está claro que a promoção é para mulheres héteros. Afinal, quem mais usaria esponja de aço pra lavar panela?
Mas aí fico pensando nos milhares de pais solteiros, de viúvos, de gays, de lésbicas... E se um deles ganhar uma das casas? Ah, mas eles não escreveriam pra promoção? E por que não? Ter uma casa própria é um sonho quase universal no Brasil, e muita gente certamente quereria ganhá-la com um simples sorteio.
Bom, eu não tenho problemas em receber as chaves dos deliciosos Malvino Salvador, Rodrigo Hilbert (que eu escolheria rs) ou do Rrrrrrrraj, hehehe! Mas seria bom ter opções para outros públicos. Ou será que vão fazer que nem fizeram uma vez comigo quando eu estava na igreja?
Em uma festa de fim de ano, para a ceia, que era coletiva e tinha contribuição de todas as famílias da congregação, resolvi fazer um prato: mousse de pêssego. Na hora, decidiram fazer um "miniconcurso", com votação de todos os presentes. Tirei 3º lugar com meu mousse e ganhei um pano de prato - era só uma lembrancinha, afinal, pois o miniconcurso era mais uma brincadeira entre amigos. A decoração do mimo: bichinhos fofos e frutinhas decoradas. Quando viu minha cara, a organizadora, meio sem jeito, disse: "Desculpe, a gente não imaginava que um homem fosse tirar 3º lugar". Depois, reclamam do machismo...







Comments (2)
João, querido!
eu tenho uma profunda antipatia por...propaganda e publicidade... talvez, por ter trabalhado anos e anos nesse segmento. Eu não vejo apenas o sexismo, que é evidente, mas também toda a forma possível de conservadorismo e pactos com o que temos de pior, inclusive o consumismo. Sempre vi a publicidade um passo atrás de todos os movimentos sociais e, paradoxalmente, os publicitários se julgam os "Donos da Revolução"...
enfim, isso é problema meu, mais um ponto para me sentir deslocado no mundo.
Beijos,
Ricardo
aguieiras2002@yahoo.com.br
Posted by RICARDO ROCHA AGUIEIRAS | maio 31, 2009 1:05 AM
Posted on maio 31, 2009 01:05
Parabéns pelo post, é muito útil mesmo!
Posted by Camas | agosto 30, 2010 4:26 PM
Posted on agosto 30, 2010 16:26