Testando o novo blog :P
Voltando ao Movable Type 3.3
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Voltando ao Movable Type 3.3
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O texto abaixo foi escrito por mim para o site Gospel Gay e rebate os principais "argumentos", sobretudo de natureza religiosa, contra a instituição do casamento gay. Reproduzo aqui porque é um dos melhores que já fiz e sintetiza o fato de que não existe argumento plausível para se negar o direito a esta parcela da população, na qual me incluo...
Recentemente, publicamos uma notícia neste blog [o Gospel Gay] informando que, na Itália, 40% das pessoas apoiam o casamento gay.
Como acontece com costumeira frequência em notícias do tipo, houve reações contrárias, especialmente ao uso da palavra "casamento" para designar a união entre pessoas de mesmo sexo. Um dos comentários maiores e, por isso, mais interessantes, não foi infelizmente assinado, sendo que por isso vou referir o autor como "Anônimo".
O comentário é interessante porque reflete uma forma muito corrente de pensar a questão do casamento, especialmente entre evangélicos de denominações tradicionalistas, mas que é pontuada de equívocos - e, para ficar mais inteligível, vou destacar as partes mais importantes, escrevendo o contra-argumento em seguida.
Sinceramente, espero que isso nunca se concretize.
A princípio, uma informação. Mesmo sendo do desejo do Anônimo que o casamento gay "nunca se concretize", isso já não é possível. Já há países que possuem casamento gay, efetivos, com todos os direitos e deveres atinentes a essa condição, injustificando, portanto, uma outra denominação para a união entre pessoas de mesmo sexo. É o caso, por exemplo, da Espanha, do Canadá, da Holanda, da Bélgica e da África do Sul. Na própria Espanha, o casamento é definido, em texto legal, como a união entre duas pessoas, desprezando a que sexo elas pertencem
Os gays podem se ajuntar na forma que quiserem, mas, casamento de verdade, somente entre homem e mulher, que podem procriar e dar continuidade à espécie humana de forma natural (e não por inseminação artificial) e prevista por Deus. Já pensaram se na origem da humanidade só tivesse gays? Ou se todos os primeiros descendentes de Adão e Eva optassem por serem gays (mesmo que fosse genético) [...]? Estaríamos aqui hoje? Acho que não... Não teríamos filhos e, consequentemente, a humanidade que hoje povoa a Terra simplesmente não existiria.
Parece haver lógica nesse argumento, mas, na verdade, existe aqui uma mistura de conceitos e uma falta de densidade racional. Em primeiro lugar, é simplesmente equivocado relacionar o casamento, qualquer que seja ele, à preservação natural da espécie humana, como se uma coisa levasse à outra, ou fossem interdependentes.
Deixemos uma coisa bem clara: animais, plantas, bactérias, vírus não se casam - mas se reproduzem e se perpetuam - e, por sinal, podem se reproduzir de formas bem diversas da que aprendemos como "natural", a reprodução sexuada macho-fêmea. Existem seres hermafroditas, seres que se reproduzem por partenogênese, seres que se reproduzem por mitose e uma série de outras estratégias.
O casamento, portanto, é uma instituição exclusivamente humana e, dessa forma, é antes de tudo, histórico-social. Ou será que já vimos uma leoa de véu e grinalda na frente de um sacerdote fazendo votos? Ou ainda uma bactéria assinando um contrato civil de união (que é o casamento civil) ou um bonobo negociando um acordo pré-nupcial?
Em termos naturais e de preservação da espécie, pouco importa que exista essa instituição. Se o casamento, hétero, fosse abolido em todo o mundo, a espécie humana ainda se reproduziria, bastando para isso que homens solteiros transassem com mulheres solteiras. É o sexo heterossexual, e não o casamento heterossexual, que é imprescindível ao encontro dos gametas e à geração de descendentes (se, como quer o autor, excluirmos a inseminação, de toda forma também buscada por héteros, vale ressaltar).
Sendo, portanto, o casamento uma instituição histórico-social, e, portanto, criada por humanos e totalmente artificial, o conteúdo desse conceito é dado exclusivamente pelos humanos. A própria prova é a existência do casamento civil, que é a modalidade que gera efeitos no Brasil, sendo que é absolutamente impossível fazer qualquer relação direta entre assinar o nome num papel em frente a um juiz de paz lavrado em cartório e transar para engravidar. A dissociação é tão grande que casais héteros podem ser casados - e optar por não ter filhos.
Assim, os seres humanos podem chamar de casamento o que quiserem, inclusive a união entre pessoas de mesmo sexo. Um exemplo prático: se o que existe na lei é um contrato civil que recebeu o nome de casamento, e a lei habilita casais de mesmo sexo a estabelecer esse mesmíssimo contrato, não existe nenhum argumento plausível para chamá-lo de outra forma.
Apelemos, no entanto, para a religião. Um erro comum dos evangélicos é considerar o casamento (religioso, ou seja, a união frente a uma divindade) como um mandamento divino em si mesmo. Isso pode ser verdade - mas é uma "verdade local". É verdadeiro apenas para os evangélicos, dentro do sistema de fé deles, e dentro de uma cerimônia particular entre eles.
O casamento religioso em si, entendido como união frente a uma divindade, existe anteriormente ao advento do cristianismo e dos mandamentos que os cristãos crêem ter partido de seu Deus. Ele também não foi e nem é exclusividade cristã.
Os "idólatras", adoradores de outros Deuses, também se casam, de forma religiosa, em cerimônias que são dedicadas a esses outros Deuses, e não ao Deus que os cristãos reputam como verdadeiro. Mesmo membros do satanismo também se casam de forma religiosa. Membros de outras tradições religiosas abraâmicas que os cristãos consideram heréticas ou equivocadas, como judeus e muçulmanos, também se casam. E, no entanto, nenhum desses outros casamentos podem ser entendidos como uma obediência ao mandamento divino, do Deus "verdadeiro", que mesmo inexiste nesses outros cultos.
O argumento do Anônimo, portanto, para se sustentar, teria de incluir uma incitação polêmica. Se tais outros casamentos não são uma obediência a Deus, mas até mesmo uma "oferenda aos ídolos", eles também deveriam ser evitados. Os cristãos deveriam, portanto, não apenas tentar impedir o casamento de pessoas de mesmo sexo, mas também os casamentos heterossexuais de wiccanos, umbandistas, candomblecistas, judeus, muçulmanos, budistas, etc., uma vez que são uniões celebradas em obediência a "divindades falsas", e não ao mandamento do "Deus verdadeiro".
Tal, porém, não ocorre e talvez porque, nessa hora, porque interessa, os cristãos evangélicos se recordam de que vivemos num Estado laico que garante liberdade de credo. Isso significa, entre outras coisas, que as pessoas podem realizar cerimônias, cultos e acreditar no que quiserem, desde que não firam a ordem pública ou interfiram no direito ou liberdade de outrem.
Então, como diria a própria Bíblia, não dá para ter dois pesos e duas medidas. Ou se aceita que todos os casamentos não-cristãos são inerentemente inválidos e falsos. Ou se aceita o princípio do respeito à liberdade religiosa que, por definição, inclui o respeito ao casamento religioso gay.
Afinal, se os membros de um determinado credo crêem que a divindade daquela religião não apenas apoia a homossexualidade, como permite que homossexuais se casem, que argumento teriam os evangélicos para interferir nesse tipo de casamento, se sua divindade é outra e se, "falsidade por falsidade", tais evangélicos admitem que a cerimônia transcorra, e seja válida, entre heterossexuais, mesmo "sabendo" que a divindade é, dentro da doutrina cristã, falsa e que não é o mandamento do Deus cristão que está sendo seguido? Acaso, os cristãos evangélicos querem ter o monopólio sobre Deuses em que não acreditam e nos quais não crêem?
O ponto nevrálgico, no entanto, é que o mesmo argumento é válido para denominações inter-cristãs. Se uma denominação cristã, adotando uma determinada linha de interpretação, entende que Deus nada tem contra a homossexualidade e que o casamento entre gays é válido, o mesmo direito há de ser garantido de realizar esta denominação a cerimônia. Portanto, o casamento hétero como mandamento divino para evitar a união gay com esse nome não se sustenta de forma racional, lógica, religiosa e muito menos de respeito à fé das pessoas, se tratado com abrangência com que se deve.
Finalmente, o terceiro equívoco, que retorna o argumento da reprodução. É um erro constante acreditar que a reprodução humana dependa da heterossexualidade. Lembremos, antes de tudo, o que define orientação sexual: é a atração físico-afetiva, o desejo erótico orientado (daí, o "orientação") a alguém de determinado sexo. A heterossexualidade, portanto, não é o ato sexual hétero. É o desejo que nasce entre os héteros e que pode, ou não, levar a esse ato consumado. O mesmo se aplica à homossexualidade e à bissexualidade.
"Pode ou não" tb tem importância porque, ao longo da vida, as pessoas muitas vezes praticam relações sexuais não-condizentes com suas orientações sexuais primárias. Não são poucos os gays que já se relacionaram sexualmente com mulheres, lésbicas que já foram casadas com homens heterossexuais, homens héteros envolvidos em experiências de troca-troca ou relações com travestis, mulheres héteros que já se agarram com uma amiga em um "momento de fraqueza".
Ora, creio que nenhum ser humano racional pensará que o desejo, sozinho, produza descendentes. Quando muito, ele apenas auxilia a chegar até lá, mas não basta desejar o homem uma mulher (heterossexualidade) para que tenha filhos com ela. É o ato sexual objetivo que produz. Logo, a heterossexualidade, sozinha, nada produz. É a relação sexual objetiva, desprotegida e em período fértil entre um homem e uma mulher que produz descendentes.
É importante destacar isso e o "pode ou não" por dois motivos: primeiro porque (1) apenas haver héteros não é garantia de reprodução e preservação da espécie. Basta apenas que os héteros decidam não ter, ou não possam (caso dos estéreis e idosos) ter filhos, ou ainda não estejam em período de fertilidade; (2) gays são homens e lésbicas são mulheres. Desde que não haja problemas de fertilidade, isso os credencia amplamente a propagar a espécie, bastando para isso que se relacionem entre si, mesmo eventualmente, sem que, para isso, abram mão de sua orientação sexual. Com efeito, não é raro encontrar gays e lésbicas que já foram casados heterossexualmente e têm descendentes biológicos - e, no entanto, são gays e são lésbicas.
Portanto, o que aconteceria se os descendentes de Adão e Eva fossem todos gays - para além do fato de que Adão e Eva é um mito, e não um fato histórico -, como sugere o Anônimo? A humanidade desapareceria? A resposta é não.
Certamente, essa condição levaria a uma estrutura social que incluiria o sexo hétero como forma de reprodução, mormente em cerimônias específicas. Para não dizer que isso é conjectura, uma boa lida nas práticas sociais do povo etoro seria interessante ao autor. Povo de prática homossexualista, os etoros reservam o sexo hétero a apenas algumas ocasiões específicas que não passam de alguns dias por ano. Isso não os impediu de se reproduzirem e se manterem, existindo até hoje, ao passo que outros povos de práticas heterossexualistas disseminadas, como os antigos romanos, desapareceram. Outros povos que podem ser chamados "ao banco de testemunhas" seriam os gregos e os antigos japoneses, que resolveram a questão de uma forma ritualística.
Quando muito, talvez uma humanidade gay crescesse apenas mais devagar. O que parece desvantagem, no entanto, seria uma ótima notícia num mundo superpopulado com mais de 6 bilhões de habitantes, alterações climáticas, aquecimento global e extinção de espécies causadas por esses mesmos 6 bilhões. Além disso, como parece haver uma menor tendência homossexual, no caso masculina, ao belicismo e ao conflito, é possível que esse crescimento mais devagar fosse compensando por um menor número de mortes de homens jovens em idade reprodutiva e passível de gerar descendência, mesmo que essa tendência "à briga" tenha, como acredito, origens plenamente sociais.
Então, sim, a humanidade existiria e sim, provavelmente, estaríamos aqui.
Os demais argumentos tecidos pelo autor são repetição dos acima refutados e, portanto, não carecem de melhor exame. Em relação especificamente às supostas passagens bíblicas "condenadoras da homossexualidade", fica a sugestão de ler o estudo bíblico já disponibilizado no próprio Gospel Gay, de autoria de Renato Hoffmann.
Ok. Você pode achar engraçado, mas só este fim de semana tive ânimo e tempo para assistir a O Dia Depois de Amanhã na tevê a cabo.
Comentar sobre o filme é infrutífero porque todo mundo sabe o que acontece: a humanidade abusa do planeta, tem início uma megatormenta e entramos numa nova era do gelo com quase toda Nova York morrendo dizimada (básico... Os americanos ADORAM destruir Nova York).
O lance, porém, é que o filme me deu um efeito colateral. Fui dormir quase 3h da manhã e passei o restante da madrugada sonhando com o Apocalipse. O que foi ótimo!
De vez em quando, tenho aquilo que chamo de "sonhos-filme". Sonhos looooongos e complexos, com começo, meio e fim, em formato de um verdadeiro longa-metragem.
Pois bem. Foi esse sonho que tive e que juntou várias referências de filmes que eu gosto:
(1) A humanidade era atacada por um vírus que, como em Resident Evil, transforma pessoas em zumbis comedores de carne;
(2) O vírus, como em Eu Sou a Lenda, faz com que as pessoas fiquem fotossensíveis e não suportem a luz do sol - mas elas atacam nas sombras e em lugares escuros. E à noite, claro;
(3) Os sobreviventes, poucos, saem à rua, mas o lugar é perigosíssimo, de maneira que eles passam a maior parte do tempo trancados, escondidos, como em O Dia Depois de Amanhã, e consumindo víveres de lojas e outros locais que conseguem encontrar, como em Extermínio;
(4) Sair à rua também é perigoso porque, na ausência de governos, um computador assumiu o controle de parte considerável das máquinas e deixa androides que parecem humanos andando pelas ruas. Um incauto facilmente é levado a se enganar e imaginar que está na presença de um humano saudável, quando está para ser capturado pelo computador. Semelhança óbvia com O Exterminador do Futuro;
(5) Por fim, surge a solução para aquela agonia, mas a emenda parece pior que o soneto. A solução é deixar o planeta para trás (o sonho-filme se passava no futuro) e unir-se, voluntariamente, à Coletividade Borg. Sim, isso mesmo: os borgs, de Star Trek, que assimilam raças à força e as colocam sob uma mente coletiva;
(6) O drama do sonho-filme, além de escapar dos humanos-zumbis infectados e evitar o supercomputador e seus androides, que tentam evitar os humanos saudáveis de chegarem a uma nave e encontrar os borgs é a própria união com os borgs. Unir-se a eles significa que as pessoas sobreviverão, mas deixarão de ser... Pessoas;
(7) Há dois grupos, portanto. Os que desejam se unir, mesmo desistindo de sua humanidade (e, entre estes, há os que creem numa sabotagem da Coletividade, usando o potencial da mente coletiva para descobrir a cura para o vírus que transformou boa parte em zumbis); e os que desejam se manter humanos e indivíduos, apesar dos pesares - e que tenham de morrer por isso.
Interessante, né?
Anotei a ideia porque, quem sabe, não nasce um conto ou história a partir daí?
Hoje de manhã, na rádio CBN, o jornalista Gilberto Dimenstein destacou Cida Araújo, dona do Farol Madalena, como personagem de destaque em sua coluna no programa de Mílton Jung.
Estava eu, preso na Marginal Tietê e estressado, quando sintonizei na rádio e tive a grata supresa, cujo áudio vocês podem conferir acima.
Para quem não sabe, o Farol Madalena é um bar lésbico, que sofreu, por 12 longos anos, uma perseguição homofóbica contra sua permanência na Rua Jericó.
Este mês, finalmente saiu a sentença judicial a favor de Cida, que enfrentou cobras, lagartos, ovos, água sanitária e homofóbicos e garantiu esse espaço lésbico na cidade de São Paulo.
Por sinal, um tipo de perseguição que soa até incompatível com uma cidade tão grande, diversa e supostamente civilizada.
Vale destacar de que o argumento do "barulho", que usaram contra ela e vocês verão a seguir, muitas vezes, esconde cores homofóbicas, servindo para espantar gays e lésbicas para outra freguesia, assim como jogar objetos como forma de intimação.
Expedientes assim me recordam as dificuldades sofridas pelo Bar Bocage e pela Diesel nos Jardins, o primeiro, de ataques neonazistas, o segundo, sofrendo com a intervenção de vizinhos incomodados com o "barulho" - e, inclusive, com instrumentalização do poder público, que agia sob denúncias não comprovadas. Ambos tiveram de se mudar.
Palmas para Cida, palmas para Dimenstein, que retratou a história com respeito e em uma rádio de grande audiência. Merecem destaques tb os comentários positivos e apoiadores do âncora Mílton Jung, feitos em interação com o colega após a coluna e que não se encontram no áudio editado, infelizmente.
Valores morais são uma questão complicada, mas penso que mais porque as pessoas complicam do que porque sejam complicados em si mesmos.
Em uma sociedade plural como a nossa, não soa extravagante dizer que os valores são relativos - e, aqui, cabe um certo cuidado com a palavra, porque existe um mal-entendimento de que, ao dizermos que algo é "relativo", isso significa que, de pronto, discordamos de sua existência e que "pode tudo", inexistindo qualquer possibilidade de estabeler um consenso e/ou uma base objetiva confiável para fundamentar conceitos.
Entretanto, uso a palavra sempre no seu significado mais simples: "em relação a". Portanto, dizer que algo, como os valores, é relativo não significa dizer que é impossível fundamentar este algo ou que necessariamente discordemos dele. Significa que temos de perguntar quais os parâmetros que estão operando para defendermos, ou criticarmos, aquele algo.
Os valores morais são, portanto, relativos porque eles dependem dessa pergunta. Quando alguém diz que é "errado" ou "certo" fazer alguma coisa, é preciso perguntar: "errado ou certo em relação ao quê?". Só esse escrutínio permitirá, então, avançar a discussão e, se for o caso, chegarem os debatedores a um consenso.
O grande problema de quem não tem uma visão relativista do assunto é porque essa discussão não avança - e justamente porque ela não reconhece o lado relativo do valor moral. Ela julga que o valor é porque é, é absoluto, não cabe discussão e, mais ainda, foi legado por uma divindade ou ser superior, representa a "ordem natural", em vez de ser fruto de uma construção humana.
A verdade, porém, é que qualquer valor moral só faz sentido se o abordamos como construção humana. Para serem efetivos, valores morais requerem que haja reflexão (por que fazer?), racionalidade (faz sentido ou não faz?), decisão consciente (fazer ou não fazer?), avaliação de custos e benefícios (se eu fizer, ou não, o que acontece?), submissão voluntária (devo fazer ou não devo fazer) e ação (fazer ou não fazer). Isso pressupõe a existência e a posse de uma mente racional capaz de tomar decisões - e, por isso, não é possível sustentar o argumento da "ordem natural", já que, a rigor, não é possível indagar como outras espécies refletem e racionalizam sobre a questão em pauta.
Também o argumento "natural" se desfaz porque, muitas vezes, as decisões tomadas com base nos valores são patentemente antinaturais no sentido de que, na natureza, é possível avaliar que a "decisão" tomada pelas outras espécies seria diversa. Um exemplo claro, para mim, é o heroísmo.
Em boa parte das vezes, o heroísmo é patentemente antinatural. Em situações em que o, digamos, instinto e mesmo o bom senso recomendaria a autopreservação, o herói abdica de si mesmo em prol de outros em nome de um valor moral. O heroísmo também pode ser antirracional. Uma decisão razoável pode ser desprezada em nome de um ato heroico baseado em um valor moral tomado como verdade - e, no entanto, louvamos essas atitudes.
Retomemos, então, o início da argumentação. Os valores morais são relativos, posto que são construções humanas. É preciso indagar o ponto de referência e o parâmetro daquele valor. Ok. E por que o assunto pode ser menos complicado do que parece?
Porque, partindo da noção de pluralismo, e da natureza relativa dos valores morais, faz mais sentido deixar que cada indivíduo, e cada grupo onde esse indivíduo se insere, sigam seu valores morais de maneira a atender à sua consciência - sem que haja constrangimento ou imposição a terceiros, que não compartilham daqueles valores.
A ideia de que "minha liberdade vai até onde a sua vai", ou, como diria a frase do célebre filósofo, com as devidas ressalvas, "posso não concordar com nada do que você diz, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las", é bem útil aqui. A rigor, cada indivíduo, e cada grupo, pode seguir o valor moral que quiser - desde que segui-lo não pressuponha o cerceamento da liberdade de outrem em desfrutar do mesmo direito e não entre em conflito com o mínimo necessário para tornar essa situação de tolerância possível.
Como já expliquei em alguns textos meus, não é possível admitir uma postura intolerante usando como argumento a tolerância. É o caso em que a relativização mostra que existe, sim, uma base objetiva passível de ser fundada.
Não é possível, por exemplo, admitir o neonazismo em uma sociedade tolerante, ou usando como argumento a liberdade de expressão. Tolerância requer tolerância. A partir do momento que a ideologia nazista não contempla a con-vivência com determinados grupos - negros, judeus, homossexuais -, mas a destruição deles, o ideal de tolerância se esvai. A finalidade da tolerância é uma sociedade múltipla e plural, que, por sua vez, se caracteriza por ser... Plural.
Para isso, essa sociedade necessita que os diferentes indivíduos e grupos coexistam em sua diversidade, gerando a pluraridade que lhe é própria. Se uma ideologia requer a destruição de grupos e indivíduos, ela não pode ser tolerada, pois, no limite, destruirá a sociedade plural em si mesma. Em suma, sabotará tudo aquilo que a ideia de tolerância almeja. O neonazismo, portanto, não deve ser admitido. É um paradoxo.
Da mesma forma, a necessidade de manter como crimes certas práticas pode ser justificada nesse paradigma. Um determinado grupo pode ter como valor moral a morte de indivíduos - mas desde que a condição fundamental para a existência de pluraridade é a existência de vida (não existem indivíduos nem grupos em sociedade se eles estiverem mortos), a defesa da vida humana completa não pode ser abandonada, e o valor moral relativo passa a ser consensual e fundamental, pois o desrespeito a ele acarretaria a impossibilidade da convivência, da pluralidade e, portanto, da sociedade. Novamente, a tolerância seria sabotada em seu objetivo. É um paradoxo.
Onde está a complicação dos valores morais, então?
Está no fato de que inexiste nos grupos essa cultura da relativização. Em púlpitos de igrejas, em discursos de políticos conservadores, na mídia fundamentalista, a relativização é vista como negativa, como "inversão de valores" e esvaziamento moral.
O resultado é uma tentativa de IMPOR seus valores como salvadores, absolutos, e, sem levar em conta a tendência plural do ser humano, fazer deles os paradigmas de uma sociedade ideal.
Na verdade, a saída para a moralidade é exatamente a relativização. Respeitar o direito do outro de seguir os valores morais dele, desde que esse outro respeite o seu direito de seguir seus próprios valores - e que tais valores, seus ou dele, não levem a um dos paradoxos que sabotem a tolerância, e, consequentemente, a convivência e o aspecto plural da sociedade.
É preciso, portanto, desconfiar das receitas prontas e das tentativas, não raro truculentas, de homogeneizar a sociedade. O "Brasil do Senhor Jesus", que tanto apregoam certos setores evangélicos, não será o Brasil de Buda, de Maomé, o Brasil ateísta, o Brasil candomblecista, o Brasil gay ou o Brasil espírita.
Será, portanto, um Brasil excludente, intolerante, que será pleno apenas para um grupo particular de pessoas. Sacrificam-se a tolerância, a pluralidade e institui-se o paradoxo para minar o direito à existência de outros grupos.
Isso parece bom para você?
Para mim, não. E vale a pena abrir o olho, pois a maior parte, senão todas as igrejas cristãs não se regem pelo paradigma relativista em suas intervenções sociopolíticas, mas pelo paradigma absolutista - e muitos embarcam nessa viagem, sem se dar conta de que eles podem ser os próximos a ser jogados do trem.
... Mas beleza masculina é fundamental, hehehehe.
Ok, ok. Pode ser que o que eu vou dizer tenha a ver com o fato de eu ser gay, mas diferentemente da maioria das pessoas, eu considero que o homem é mais bonito que a mulher.
Eu digo "maioria" porque nós, humanos, estamos acostumados demais a relacionar as ideias de beleza, suavidade, vaidade e mesmo erotismo às curvas femininas – bem mais que aos músculos masculinos. Resultam daí afirmações como a clássica de que "a mulher é sempre mais bonita que o homem" e que outros complementam com aquela partícula que me dá arrepios: "diferentemente de outras espécies".
De fato, é sabido que, via de regra, em muitas outras espécies, os machos são mais exuberantes. O peru, o pavão, o leão, o cervo...
É claro que, nessa conta, que, no fundo, tem um componente ideológico de manter o dualismo e o maniqueísmo de gênero típico dos seres humanos ocidentais, não entram espécies como as hienas, em que as fêmeas são maiores, mais fortes, mais exuberantes e têm até um "pau" maior. Daí, vocês conseguem entender porque sempre tenho arrepios quando as pessoas tentam justificar comportamentos humanos recorrendo, sem grandes reflexões, à "natureza" - pois geralmente, a "natureza" é tão somente o que elas querem ver como natural.
Enfim, mas que seja. Admite-se, no senso comum, que, diferentemente de "outras espécies", no ser humano, as fêmeas são mais exuberantes. É disso que eu discordo, mas de uma forma inesperada que vocês verão ao longo do texto.
Na verdade, é possível até que a mulher se torne mais bela que o homem. Mas isso acontece não porque ela seja mais bela que o homem - mas porque nossa sociedade lhe permite, e lhe impõe, o uso de artifícios para isso.
Com efeito, o que nossa sociedade convencionou como ideal de beleza feminina comporta muita artificialidade. De cosméticos à moda, passando por práticas como a depilação, a mulher desejável, via de regra, na nossa sociedade, tem muito pouco a ver com o que ela é, mas com o que os outros, os homens héteros em especial, querem que ela seja.
Uma mulher natural, ou com mais elementos naturais, não é muito atrativa. Quem se interessaria por uma mulher com pernas peludas, com pelos nas axilas, sem maquiagem, com sobrancelha não-aparada e unhas não-feitas?
Alguns, certamente, mas muito poucos. Para a mulher ser bonita, ela precisa ser, em grande parte, artificial. Dúvida? Fiz um teste na comunidade de Ex-evangélicos do orkut. Mostrei um segmento que está sendo explorado na pornografia - por isso, atenção: as fotos e links a seguir são para maiores de 18 anos -, o das "unshaved girls", "hairy girls" ou "garotas naturais".
O que é isso? Meninas que abrem mão de parte da artificialidade atinente à beleza feminina socialmente considerada. Vejam os sites aqui e aqui e esta foto, que escaneei da revista AVN Europe de julho/2008, que me inspirou a escrever este post. Na comunidade, todas as reações foram de condenação e nojo, e tenho certeza de que serão a maior parte das reações de meus leitores.
E o curioso - e este é meu ponto - é que o homem pode ser bonito tendo tudo isso: pelos nas axilas, nas pernas, mesmo no rosto e em alguns casos nas costas - quiçá mantendo mesmo a região genital assim, mais selvagem... Olha o Hugh Jackman aí em cima, por exemplo, hehehe. Resulta, portanto, minha conclusão de que, em termos de mais naturalidade, ou, melhor, menos intervenção, é o homem, e não a mulher, o mais belo.
Há duas coisas a considerar aqui. Primeiro, um amigo meu diz que isso pode ser levado para outro lado: que, na verdade, a mulher é sim mais bonita, posto que toda a cosmética e moda explora um potencial, digamos, inato, que já está ali e que a leva a um "estado de arte" que o homem não é capaz de alcançar. Faz sentido, mas o grande problema é que não dá considerar o que seja mérito da mulher ou mérito da arte nesse imbróglio.
A outra é que os homens não são, afinal, tão naturais. Nós nos barbeamos, afinal. Muitos tiram os pelos das costas e do nariz, cortamos os cabelos como as mulheres e hoje muitos se depilam e mesmo se maquiam. É verdade. Afinal, os seres humanos são mestres na artificialidade e no não-natural. Mas meu ponto não é que os homens sejam naturais e as mulheres artificiais - mas que, para ser considerado bonito, o homem requer menos artificialidade, menor número de intervenções, que a mulher. Logo, na largada, ele sai com vantagem. A mulher até pode se tornar a mais bela no fim da corrida - mas, no início, é ele que é.
No entanto - e aqui vem o aspecto inesperado a que me referi há pouco -, essa minha posição não tem necessariamente a ver com o "fato" de que as mulheres sejam naturalmente desprovidas de mais beleza, como se Mamãe Natureza, a genética, a biologia ou algo que o valha simplesmente quisessem assim. Afinal, eu tenho arrepios a essas ideias biologizantes e "naturalistas", não foi o que falei?
O ponto crucial é social: por motivos ainda não esclarecidos, nós criamos um ideal de beleza feminina de tal forma artificial que as mulheres só podem corresponder a ele mediante um esforço hercúleo, e, diria eu, até mesmo sofrimentos desnecessários. Valorizamos demais um simulacro de mulher (Platão adoraria essa) em detrimento de uma mulher mais real, mais palpável e, por que não, um pouco mais natural.
O homem é mais bonito que a mulher porque a beleza masculina, socialmente considerada, é menos dependente de artificialidade, sofrimento, esforços hercúleos, e isso lhe dá vantagem naquela largada a que me referi. É mais fácil ser belo do que ser bela - mas a questão é que isso ocorre porque o nosso ideal de beleza masculina é menos distante do que o homem é, ou pode ser, por si mesmo. E também porque as dificuldades não são levadas em conta na hora de valorar a beleza.
Pode parecer que não - mas este texto não é um texto misógino...
... Mas que eu acho o homem mais bonito, acho! Hehehehe.
Creio que ninguém discorda que o Brasil tem uma das melhores publicidades, e publicitários, do mundo. O alto nível de nossas produções é comprovado pelos concursos internos e pelo bom desempenho em competições internacionais.
Alguns comerciais tornam-se mesmo inesquecíveis. Quem não se recorda do famoso "A minha voz continua a mesma, mas os meus cabelos... Quanta diferença"? Ou ainda do Negresco, que justifica tudo ou de um elefante nadando no oceano atrás de uma Coca-cola com a música "Só você me trouxe aqui... Que loucura esse desejo de te encontraaar?".
No entanto, é verdade que nem tudo são flores. A publicidade nacional também possui peças sofríveis, que pecam pelo excesso, pela falta, pela obviedade - e, às vezes, fazem a gente pensar: quem teve coragem de aprovar isso?
Uma das coisas que mais me deixam irritado é um inevitável sexismo em comerciais de produtos para o lar - e também alimentos e remédios, muitas vezes. Parece que, para os publicitários, homem não sabe lavar louça, não cozinha, não usa máquina de lavar nem sabão em pó, não troca cestinho de banheiro e, quando fica gripado, não tem a menor ideia de que remédio tomar. Em todos esses comerciais, é a sempre a mulher, e casada, que faz essas coisas.
Chega ao cúmulo de rejeitarem amostras. Uma vez no Metrô Consolação, estavam distribuindo amostras de sabão em pó e a modelo que distribuía me negou uma porque eu sou homem. Sorte dela que eu estava atrasado para o trabalho e não dei importância. Mas vontade de falar: "escuta, moça. Sou gay, não tenho mulher em casa, e eu lavo roupa, viu?", deu.
Ok. A indústria do marketing sempre tem centenas de pesquisas e, provavelmente, os comerciais são direcionados para o público que representa a maioria dos consumidores - mas e a criatividade, onde fica? E a ousadia? E falar também para os outros consumidores, mesmo que de vez em quando? Afinal, a Coca-cola não tem elefantes nadadores entre os consumidores de refrigerante. E a pomada Nebacetin, que representou tantas famílias diferentes e seus filhos, misturou maiorias e minorias em uma peça deliciosa - que mostra até um casal gay.
Ademais, mostrar outras realidades teria um interessante efeito pedagógico. É curioso que não apareçam mães solteiras e nem casais divorciados nesses comerciais, quando são situações cada vez mais frequentes no Brasil. O clichê papai, mamãe e filhos já não é realidade para boa parte da população.
Mas nããããão. O sabão em pó Omo é sempre coisa de mulher que têm filhos que mancham a roupa. O marido nunca sabe que Vick faz bem pra gripe. E lóóógico: só ela sabe cozinhar com caldo Knorr, limpa o banheiro e usa Pato Purific. Bom, verdade seja dita... Até que houve uma evolução: agora, eles também mostram a mulher trabalhando... E chegando em casa e fazendo tudo. Ou pelo menos lembrando de fazer. Afinal, é ela que tem de ligar para passar SBP na casa e dar outras providências. O homem nunca sabe...
A última investida do sexismo teve lugar na promoção "Ô, lá em casa", da Bombril, marca que sempre se caracterizou pela criatividade em sua bancada com o mesmo garoto-propaganda. Está claro que a promoção é para mulheres héteros. Afinal, quem mais usaria esponja de aço pra lavar panela?
Mas aí fico pensando nos milhares de pais solteiros, de viúvos, de gays, de lésbicas... E se um deles ganhar uma das casas? Ah, mas eles não escreveriam pra promoção? E por que não? Ter uma casa própria é um sonho quase universal no Brasil, e muita gente certamente quereria ganhá-la com um simples sorteio.
Bom, eu não tenho problemas em receber as chaves dos deliciosos Malvino Salvador, Rodrigo Hilbert (que eu escolheria rs) ou do Rrrrrrrraj, hehehe! Mas seria bom ter opções para outros públicos. Ou será que vão fazer que nem fizeram uma vez comigo quando eu estava na igreja?
Em uma festa de fim de ano, para a ceia, que era coletiva e tinha contribuição de todas as famílias da congregação, resolvi fazer um prato: mousse de pêssego. Na hora, decidiram fazer um "miniconcurso", com votação de todos os presentes. Tirei 3º lugar com meu mousse e ganhei um pano de prato - era só uma lembrancinha, afinal, pois o miniconcurso era mais uma brincadeira entre amigos. A decoração do mimo: bichinhos fofos e frutinhas decoradas. Quando viu minha cara, a organizadora, meio sem jeito, disse: "Desculpe, a gente não imaginava que um homem fosse tirar 3º lugar". Depois, reclamam do machismo...
Do Começo ao Fim é um filme que estreará entre julho e agosto. Apesar do tema polêmico - incesto entre dois meio-irmãos -, parece que o assunto será tratado com muita delicadeza. Adorei! Ah, e não... Eu não tenho absolutamente nada contra o incesto.
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